
Priscila de Oliveira Spadinger (*)
Nos últimos anos, tenho vivido de perto um movimento que vem mudando o jogo no ecossistema de inovação: o avanço das venture builders — estruturas que vão muito além do investimento financeiro e colocam a mão na massa, junto com o empreendedor, desde o dia zero.
Digo isso com propriedade porque acompanho de dentro essa transformação, principalmente no setor jurídico, onde as LegalTechs ganham cada vez mais espaço e relevância. O que antes parecia um universo “engessado” e resistente à inovação agora se mostra um campo fértil para quem quer gerar impacto, resolver dores reais e escalar soluções com propósito.
E aqui estruturamos a nossa Holding Aleve LegalTech Ventures S/A como uma Venture Builder!
Mas afinal, o que é uma venture builder?
Se você nunca ouviu esse termo ou ainda confunde com fundo de investimento, vale entender a diferença: enquanto o fundo tradicional injeta recursos e acompanha à distância, a venture builder atua como uma verdadeira fábrica de startups. Ela ajuda a construir negócios desde o início, oferecendo tudo que um empreendedor precisa: estrutura jurídica, contábil, marketing, tecnologia, gestão e, claro, capital inteligente.

No Brasil, onde o ambiente jurídico e regulatório ainda é complexo (para dizer o mínimo), esse modelo se mostra extremamente eficaz. E quando olhamos para o Direito, o impacto é ainda mais profundo. Muitas vezes, o que falta para transformar uma boa ideia em negócio viável é justamente essa ponte entre o conhecimento técnico e a execução estratégica.
Começar pelo começo: a tese e os fundadores
Toda venture builder séria começa com uma tese de investimento clara. No nosso caso, escolhemos o Direito — um setor carente de tecnologia, ouso até dizer ser o setor mais tradicional do mundo e, por isso mesmo, com um oceano de oportunidades. A partir daí, buscamos empreendedores com perfil de liderança, resiliência e sede por resolver problemas reais, não só boas ideias.
Confesso: selecionar os fundadores é uma das partes mais delicadas. Já vi de tudo. Por isso, criamos processos de seleção que testam não só o conhecimento técnico, mas também a capacidade emocional de lidar com pressão, frustração e os altos e baixos naturais do empreendedorismo.
Produto no mundo real, não só no papel
Depois vem o MVP — o famoso Produto Mínimo Viável. A lógica aqui é simples: testar rápido, aprender rápido e ajustar mais rápido ainda. Em vez de idealizar soluções “perfeitas” que nunca saem do papel, colocamos no mercado o quanto antes, ouvindo o cliente, iterando e validando com dados reais.

No setor jurídico, isso significa entender a fundo a dor de um advogado, de um cartório, de um departamento jurídico. Não adianta “tecnologizar” processos sem entender a alma do problema.
Receita desde o dia 1
Tem um mantra que a gente carrega: sem receita, não tem romance. Pode parecer duro, mas é libertador. Focar em receita desde o início ajuda a evitar a armadilha de ficar eternamente buscando rodada atrás de rodada, sem provar valor de verdade. O dinheiro do cliente é o melhor termômetro de que estamos no caminho certo.
Startups nascidas em venture builders tendem a ser mais enxutas, mais eficientes e mais orientadas a resultado. Isso torna o valuation mais sustentável — e não inflado artificialmente.
Governança, portfólio e crescimento consistente
Com o tempo, à medida que o portfólio de startups cresce, é preciso estruturar também a casa: conselhos, auditorias, processos transparentes e métricas padronizadas. Isso tudo não é burocracia — é o que garante confiança do mercado e dos investidores, e, mais importante, consistência para seguir crescendo.
Na Aleve LegalTech Ventures, por exemplo, temos vivido exatamente isso. Em quatro anos, estruturamos um portfólio 100% jurídico e ultrapassamos a marca dos R$ 200 milhões de valuation. Mas mais do que o número em si, o que nos orgulha é o impacto gerado: soluções concretas, talentos revelados e pontes criadas entre inovação e tradição.

E o futuro?
Apesar de ainda emergente no Brasil, o modelo de venture builder tem tudo para crescer, especialmente em setores como o jurídico, que pedem urgência na transformação. Aqui, inovação não é luxo — é necessidade.
Para quem, como eu, acredita que transformar o Direito é possível (e urgente), apostar em venture builders é acreditar em um novo jeito de fazer inovação: com método, com coragem e com propósito.
No fim das contas, valuation é só consequência. O verdadeiro valor está nas conexões que criamos, nos negócios que tiramos do papel e no impacto que conseguimos gerar — dentro e fora do ecossistema jurídico.
(*) CEO da Aleve Legaltechs Ventures.




