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A nova Guerra Fria de Silício: como o Brasil pode não ficar para trás

em Manchete Principal
quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Nesse cenário, o Brasil tem os ativos. Falta decisão política para transformá-los em poder industrial, na visão de Fabio Ongaro, economista, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam

A chamada “guerra dos chips” não é sobre preços ou margens comerciais. É sobre quem vai comandar a inteligência do século XXI. Quem controla os chips controla os algoritmos, a defesa, os dados e o poder geopolítico. O silício é o novo petróleo, o recurso estratégico que alimenta a economia digital, as armas autônomas, a inteligência artificial e o próprio ritmo da inovação.

Segundo Fabio Ongaro, economista, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Câmara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam, “O Brasil possui ativos únicos: energia limpa em escala, minérios estratégicos e estabilidade institucional. Mas a pergunta incômoda é: estamos transformando esses ativos em poder industrial, ou continuamos apenas como fornecedor de matérias-primas”?, questiona.

Os Estados Unidos e a China chegaram a conclusões completamente opostas sobre como vencer essa guerra, e ambas estão investindo bilhões para fazer funcionar.

A estratégia americana é de reconstrução defensiva. Depois de 30 anos de terceirização, os EUA decidiram voltar para casa. O CHIPS Act — investimento de centenas de bilhões de dólares — é a resposta. O objetivo é trazer fábricas de semicondutores para solo americano, proteger gigantes como Nvidia e Intel, e garantir que Taiwan, não a China, continue sendo o coração pulsante da microeletrônica global. É paradoxal, mas o cálculo é claro: o custo de recuperar a soberania agora é menor do que o custo de perdê-la permanentemente.

A China opera com lógica radicalmente diferente: o Estado como arquiteto central da economia tecnológica. O Partido planeja deliberadamente “distorções de mercado” como ferramentas de desenvolvimento. Investimento público maciço, parques industriais integrados como incubadoras de autossuficiência, integração vertical completa, do minério raro ao supercomputador final. O plano é transparente: reduzir progressivamente a dependência dos chips americanos e transformar o domínio da manufatura em domínio da inovação.

Ambas as estratégias estão funcionando e deixam claro que essa não é uma disputa que se resolve com mercado livre, que se vence com decisão política e investimento maciço de longo prazo.

Fabio Ongaro

O tabuleiro brasileiro
Para o Brasil, essa reconfiguração global representa algo raro: uma oportunidade real de se posicionar diferente. Não como consumidor, não como fornecedor de mão de obra barata, mas como parceiro estratégico.

O país possui ativos que o mundo deseja: energia limpa em escala, minérios essenciais como lítio, terras raras, cobre refinado, estabilidade institucional e biodiversidade. Tudo isso enquanto americanos e chineses travam sua batalha.

“O mundo busca desesperadamente parceiros capazes de oferecer recursos sustentáveis, infraestrutura energética confiável e previsibilidade institucional”, explica Ongaro. “O Brasil poderia ser esse parceiro. Mas isso exige uma decisão: integrar inovação à base produtiva”.

Significa investir em pesquisa e desenvolvimento, criar polos de excelência em tecnologia conectados aos centros globais, transformar os minérios do Brasil não em commodities básicas, mas em componentes sofisticados para a cadeia de valor dos chips. Significa pensar em décadas, não em ciclos eleitorais.

Se o Brasil não fizer essa escolha, corre um risco que vai além do econômico: permanecer como espectador de sua própria história. Enquanto americanos fabricam chips e chineses inovam em IA, o Brasil continuaria exportando minério bruto, dependente de Washington ou Pequim.

“Toda grande transformação econômica começa com uma decisão”, diz Ongaro. “Os EUA decidiram reindustrializar. A China decidiu dominar. O Brasil precisa decidir se quer ser protagonista ou figurante. E essa decisão tem prazo: o mundo está se reorganizando agora. Quem ficar de fora pode passar os próximos 20 anos tentando alcançar o comboio que já saiu da estação”.

O Silício como espelho
A guerra dos chips reflete as escolhas de cada nação. Os EUA escolheram reconstruir. A China escolheu dominar. A Europa apostou em nichos sofisticados. Cada escolha tem consequências que se desenrolarão pelas próximas décadas.

O Brasil ainda está escolhendo. Os minérios estão aqui. A energia está aqui. O talento está aqui. Faltam coragem política para transformar potencial em ação e compreensão de que numa guerra de silício, quem fica parado fica para trás. A janela está aberta. Mas não ficará aberta para sempre.