
Especialista explica como pedir feedback, negociar benefícios e conversar sobre carreira
Falar com a liderança pode ser um dos maiores desafios para estagiários, especialmente quando se trata de pedir feedback, propor mudanças ou negociar horários e benefícios. A pesquisa Perfil do Estagiário Brasileiro, (Companhia de Estágios, 2024), traz alguns exemplos do que os estagiários mais almejam durante o percurso profissional e que poderia entrar em pauta nas conversas com a liderança. Segundo o levantamento, 48% dos estudantes que participam de programas de estágio ou estão em busca de vagas desta modalidade priorizam flexibilidade de local de trabalho e benefícios que favoreçam o seu desenvolvimento.
Nesse cenário, é fundamental que os jovens talentos saibam como conduzir conversas produtivas com colegas e gestores. Para Ana Eliza Silva, Coordenadora de Recursos Humanos da Companhia de Estágios, líder em recrutamento e seleção de estagiários, trainees e jovens aprendizes, o segredo começa com uma boa leitura de ambiente e uma postura aberta para a comunicação clara.
Confira a seguir essa dica em detalhes e mais seis conselhos inspiradores.
- Desenvolver compreensão do ambiente – Segundo a especialista, o primeiro passo é observar. “Ao entrar em uma empresa, é essencial compreender a cultura, o clima do time e a forma como a liderança conduz o dia a dia. O estagiário precisa ter um momento mais observador, se mostrar aberto a aprender e construir confiança antes de propor qualquer sugestão de mudança”, explica. Essa postura evita que o jovem seja visto como arrogante ou desinteressado, além de demonstrar maturidade profissional.
Outro ponto importante é avaliar se o ambiente é seguro para trocas. “Um líder é responsável por criar um espaço psicologicamente saudável, onde dúvidas possam ser tiradas e ideias compartilhadas. Do contrário, a equipe tende a ser rígida e pouco colaborativa. Se este for o caso, cabe ao estagiário refletir se aquele é um bom ambiente para estar”, acrescenta. Ela lembra que esta geração de jovens profissionais é mais questionadora e preparada para contribuir, mas é necessário dosar o timing das interações.
- Aprender a ter conversas profissionais – Para ampliar a visão sobre a empresa, o estagiário não precisa recorrer apenas ao gestor direto. Pode construir uma rede de apoio com colegas mais experientes, analistas, assistentes e até outros estagiários. A ideia é identificar quem está mais interessado e aberto a conversas e trocas construtivas.
Com o líder direto, a conversa pode começar de forma objetiva, com perguntas como: “O que se espera de mim? No que eu posso contribuir?”. Assim, o jovem direciona o gestor a deixar claro quais são as prioridades. Aos poucos, ele vai consolidando entregas. “Na dúvida, pergunte. Mas tenha cuidado com o timing: às vezes é preciso marcar um horário ou esperar o momento certo para abordar o gestor. Lembre-se: a urgência é nossa, não do outro. O segredo é encontrar o tempo do líder para que a conversa seja produtiva”, orienta Ana Eliza.
- Aprender a negociar – Quando o assunto é negociação, a especialista destaca a importância da flexibilidade. “Toda negociação envolve ganhos e concessões. Se um estagiário precisa sair mais cedo por conta de um compromisso pessoal, por exemplo, deve pensar em como não deixar a entrega comprometida. A empresa não pode ceder sempre, então o estagiário precisa mostrar responsabilidade e propor contrapartidas”, afirma.
Ela também lembra que é preciso avaliar o momento. “Se está entregando bem, recebendo elogios e bons feedbacks, pode ter abertura para negociar. Mas se há atrasos ou insatisfação da liderança, não é hora de trazer demandas”, completa.
- Entender o que pode ser negociado – No caso da bolsa-auxílio, os programas de estágio costumam seguir políticas fixas, não havendo muita margem para mudanças. “Diferente de cargos CLT, a remuneração de estágio geralmente tem reajustes pré-definidos, em períodos específicos. O estagiário até pode fazer propostas, mas a negociação costuma ser mais viável em relação a benefícios flexíveis, como um dia de home office ou saída antecipada em ocasiões específicas”, explica.
Se estiver se destacando, o jovem também pode solicitar benefícios para cursos de idiomas, cursos específicos da área de atuação na empresa ou mesmo desenvolvimento de soft skills relacionados à sua área, mostrando como esse investimento pode agregar às entregas, tentando justificar que é viável receber esse estímulo ao desenvolvimento.
A especialista reforça que é importante compreender se existem precedentes de algum benefício ou proposta parecida com aquela almejada já realizada na empresa, por meio de uma conversa com o líder, por exemplo. Sempre lembrar que negociações que apontem para melhoria de entregas e resultados ou mesmo desenvolvimento de soft skills têm maiores chances de serem aprovadas.
- Falar sobre o escopo de atividades – Antes de levar qualquer insatisfação diretamente ao gestor, a especialista recomenda trocar ideias com colegas mais experientes. “O estagiário pode buscar opiniões sobre seu desempenho e clareza sobre caminhos de desenvolvimento. Essa rede de apoio ajuda a construir argumentos mais sólidos na hora de conversar com o líder”, orienta.
Se perceber que o escopo está distante de seus objetivos profissionais, o jovem pode propor participação em projetos mais alinhados ou avaliar a situação com a liderança e o RH. “Um líder sempre valoriza estagiários interessados, proativos e comprometidos com o seu tempo. Ficar parado em uma única tarefa pode ser visto como subaproveitamento, enquanto a proatividade é sempre bem-vista”, completa.
Há também a possibilidade de buscar em outras áreas que sejam correlatas, desde que tudo seja feito com transparência e negociação amigável.
- Pedir e aproveitar feedbacks – O feedback deve ser encarado como ferramenta de crescimento, não como crítica pessoal. “Não é preciso esperar que o retorno chegue. O estagiário pode, e deve, perguntar se a tarefa foi bem feita e se há pontos de melhoria. Isso demonstra interesse e acelera o aprendizado”, afirma.
Alguns meses antes do fim do contrato, também é válido manifestar interesse em permanecer. “É importante verbalizar: ‘gosto do ambiente, quero continuar aprendendo aqui, quais os próximos passos?’. Se não houver possibilidade de efetivação, ainda dá tempo de buscar novas oportunidades com tranquilidade”, recomenda.
- Lidar com feedbacks negativos – Ao falar sobre críticas, Ana Eliza usa uma metáfora: “É como errar o caminho no trânsito: o GPS recalcula a rota. A vida adulta envolve situações desconfortáveis, e é justamente nelas que mais aprendemos. Elogios são importantes, mas é a crítica que nos move”. Para ela, o segredo é filtrar os retornos, identificar o que é construtivo e transformar em aprendizado.
Mostrar vulnerabilidade, quando saudável, também pode fortalecer a relação com a liderança. “Dizer ‘não estou conseguindo, mas quero melhorar’ mostra disposição para aprender. O jovem não deve esperar passivamente pelo feedback: precisa buscá-lo de forma proativa, com autocrítica e interesse genuíno em evoluir”, reforça.
Além disso, o feedback não precisa ser apenas formal. “Durante uma tarefa, é possível perguntar: ‘Está bom assim? Precisa de algum ajuste?’. Essa atitude dá vantagem competitiva, porque permite corrigir rápido e acelerar o desenvolvimento”, diz.
Nesse processo, colegas e líderes oferecem visões complementares. “Ninguém é dono da razão absoluta. Ouvir diferentes perspectivas é um diferencial para crescer mais rápido”, conclui.




