ISSN: 2595-8410 Contato: (11) 3043-4171

Esporte: um direito do cidadão ou ópio do povo?

A virada física do calendário leva a supor que tudo mudou. Arranca-se da porta do armário aquela folha velha e desbotada por tantas consultas e substitui-se por uma nova dando a impressão de que a vida começa do zero

Olimpiadas temporario

Fotos: https://plenarinho.leg.br/ index.php/descubra/esporte/

Katia Rubio (*)

Enquanto alguns se enganam com essa perspectiva de tempo linear, de fim de uma coisa e começo de outra, outros, um pouco mais cautelosos e adeptos de uma perspectiva cíclica, entendem que o passado permanece vivo. Por isso guardam folhinhas e agendas passadas porque nelas há sempre um lembrete, um recado que pode, no futuro, representar a salvação num momento de apuro. As palavras comumente presentes no ritual da folhinha são o sempre e o nunca, acompanhadas de um suspiro, meio de esperança, meio de desgosto, com o pensamento “esse ano vai ser diferente”.

Nunca é tarde para lembrar que a esperança foi a única coisa que restou dentro da caixa repleta de desgraças tão humanas que Zeus, o maioral do Olimpo, deu de “presente” a Pandora, como forma de retaliar Prometeu, que havia compartilhado o fogo sagrado entre os humanos. Resta saber o quanto dura o para sempre. Ou como cantou o poeta “se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar, que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acaba”.

Assim parece ter começado o ano de 2019. Entre um suspiro de esperança e outro de desgosto resta o desejo de um ano diferente. Mudanças no governo federal e estadual. Novo congresso, novos ministérios, acompanhados de alguns velhos problemas que insistem em fazer parecer que o ano tem bem mais do que 365 dias. Ou seja, 2018 será o ano que não acabou, o referencial de pra sempre, muito embora neste ano tenhamos Jogos Pan-americanos, uma competição cara aos brasileiros e brasileiras.

Direito-o-que-é-1024x399 temporario

Fotos: https://plenarinho.leg.br/ index.php/descubra/esporte/

Acostumados a resultados expressivos nessa competição americana atletas e amantes do esporte precisarão, desde já, conter as expectativas e a ansiedade por resultados. Diferentemente das edições que se sucederam desde o Pan de 2007, no Rio de Janeiro, há pouco o que se esperar diante do cavalo de pau dado no carro do esporte brasileiro. Durante o ano que passou anúncios de forma sutil foram aos poucos indicando que o esporte deixou de ser prioridade.

O menor dos ministérios da Esplanada, que em 2017 representava 0,48% do orçamento foi ainda reduzido em 87% para o ano de 2018, embora a inflação do período tenha sido de 2,5%. Com um orçamento de R$ 1,38 bilhão, em programas de esporte foram gastos R$ 144 milhões. Outros R$ 128 milhões foram para “pagamentos administrativos” (salários, pensões, aluguéis etc). O restante de recursos gastos, mais de R$ 645 milhões, foram de dívidas de anos anteriores, ou seja, quase o quíntuplo de recursos específicos para o esporte em 2018.

Prenúncio de sua extinção ali também estava indicado que politicamente não se deveria mais gastar trunfos e energia com um tema que estava mais para as páginas policiais do que para os velhos e bons cadernos de esporte que dedicavam páginas e páginas na cobertura de treinos, competições, história de vida de atletas e análises técnicas variadas.
A queda em desgraça de um direito constitucional levou consigo toda uma história de conquistas que culminou em resultados expressivos na educação, em competições e na multiplicação da prática de diferentes culturas corporais de movimento. Diferentemente das edições que se sucederam desde o Pan de 2007, no Rio de Janeiro, há pouco o que se esperar diante do cavalo de pau dado no carro do esporte brasileiro

Esporte temporario

Professora Katia Rubio.

Fotos: Cecília Bast5os/USP Imagens

Um dia alguém anunciou que nunca antes na história desse país o esporte seria o mesmo. De fato, depois de experimentar a altura de um voo panorâmico será preciso se acostumar a rastejar ao rés do chão buscando tocas onde se esconder dos escombros que ainda caem de uma estrutura desfeita à marreta. Com a extinção do ministério do esporte, dos benefícios criados para favorecer uma base sólida de atletas jovens e de uma estrutura que entendia o esporte como uma prática acessível resta a disposição para reencontrar o lugar de pertencimento de um direito constitucional.

Ele já esteve aos cuidados do ministério da educação, da educação e cultura, já foi secretaria especial e mesmo assim sobreviveu, não como direito, mas como necessidade. Uma necessidade tão latente que chegava a ser anunciada como vício que demandava o ópio. Infelizes os ignorantes que pouco ou nada sabem sobre o esporte e o tratam apenas como um vício ou espetáculo.

Aos que o tratam como vício falta o conhecimento sobre uma experiência que se inicia muito cedo na existência dos seres humanos, ainda de forma lúdica, e que pode vir a ser um meio de distinção, não apenas social, mas acima de tudo humano. Porque essa prática proporciona em quem a experimenta o poder da transcendência e do limite da humanidade, seja na conquista de uma marca nunca antes atingida, seja na realização de um gesto perfeito, divino.

Banalizam a existência de um fenômeno de massa porque, ainda que manipulável em algumas ocasiões ele não o será para sempre. Qualificam-no como ópio do povo por desconhecerem sua potência educativa, que, no limite, também transforma a sociedade. Inclassificável também é a postura de quem o toma apenas como espetáculo. Embora suscite a emoção da audição de Summertime, no contexto de Porgy and Bess, ou de We are the champions, num concerto no Estádio de Wembley, nada substitui a intensidade da expressão facial do vitorioso ou o clímax de um match point.

Nenhum espetáculo é mais humano do que a inclassificável emoção da derrota, essa sim demasiadamente humana. Espetáculos são produzidos e manipulados conforme convém ao produtor. O esporte obedece a regra da excelência e da superação. Por isso escapa à compreensão de burocratas. Por isso não cabe em uma sala no fundo do corredor de algum ministério que não seja dedicado apenas a ele para onde o esporte brasileiro foi enviado no início desse ano.

O que resta é acreditar na condição cíclica do tempo. Um dia tudo isso aconteceu e por determinação de uns, insistência de outros e a crença cega na importância disso para si, mas principalmente para as gerações futuras, atletas e modalidades esportivas sobreviveram à escassez de recursos e à falta de respeito por parte de políticos e dirigentes.

A ação desses abnegados, assim como a esperança na caixa de Pandora, segue registrada, menos na história dita oficial e muito mais nas narrativas de atletas que guardam em suas memórias o reconhecimento pelo esforço em manter viva a chama de um fenômeno educativo e social chamado esporte.

O esporte é sim para todos e também para alguns mais habilidosos, por isso ele é democrático. E como direito ele deve permanecer na pauta política do país, reclamando por verba e políticas.

(*) - É professora associada da Escola de Educação e Esporte da USP, psicóloga e membro da Academia Olímpica Brasileira (Jornal da USP).

Mais artigos...

  1. Avatar é usado por surdos em sala de aula
  2. Especialista indica as profissões que estarão em evidência em 2019
  3. Senado preserva os livros que registram posses presidenciais desde 1891
  4. O destino dos mamíferos após a extinção dos dinossauros
  5. Tribunais produzem vídeos para estimular adoção de crianças e adolescentes
  6. Novo governo terá R$ 3,38 trilhões para administrar em 2019
  7. O ano em que Cristiano Ronaldo abraçou a Juventus
  8. O ano que a prisão de Lula derrotou o PT
  9. Polarização e fake news marcaram eleições no Brasil
  10. Uma desnecessária operação de guerra
  11. Número de usuários de internet cresce 10 milhões em um ano no Brasil
  12. 60% dos brasileiros que economizam escolhem a poupança para guardar dinheiro
  13. Novo Mais Médicos enfrenta velhos problemas
  14. Eram os deuses jornaleiros?
  15. Mais de um século e meio depois, guerra ainda é ferida aberta no Paraguai
  16. Reforma trabalhista formalizou mais empregos, mas continua contestada
  17. Dependência econômica e fé se misturam em Abadiânia, em Goiás
  18. Professor da USP conta suas memórias da época do AI-5
  19. Senado busca desburocratizar serviços públicos
  20. Assassinato de Chico Mendes faz 30 anos
  21. Como o brasileiro vê o cumprimento das leis
  22. Ipea: 23% dos jovens brasileiros não trabalham e nem estudam
  23. “Internet dos animais” entrará em operação em 2019
  24. Divórcio demorou a chegar no Brasil_01
  25. Chesf inicia estudo com painéis solares em reservatório de Sobradinho
  26. Comércio, clima e trabalho são prioridades do Brasil na Cúpula do G20
  27. Em busca do trem perdido
  28. Geração nem-nem já soma 11 milhões de jovens no País
  29. Tratamento com fitoterápicos aumenta na rede pública de saúde
  30. Atual modelo hospitalar deixa saúde cara e não inibe erros
  31. Brasil começa a levar imigrantes para o interior
  32. Biodiversidade é estratégica para o desenvolvimento do Brasil
  33. Brasil já teve 2 presidentes militares eleitos nas urnas
  34. Tecnologia poderá ajudar na implantação do novo Ensino Médio
  35. Inadimplência atinge 62 milhões de brasileiros e afeta 3% do crédito
  36. Encerrada há um século, Primeira Guerra extinguiu impérios
  37. Estigmas e tabus: por que o câncer de ontem não é o mesmo de hoje
  38. ONG oferece assessoria a empreendedores no Brasil
  39. Ministros do STF defendem necessidade de reforma política
  40. Sem obras em dois distritos, moradores de Mariana mostram apreensão
  41. Em novembro de 1955, crise fez Brasil ter 3 presidentes numa única semana
  42. General Heleno defende uso de atiradores de elite contra criminosos
  43. Preservar a Constituição e unir sociedade são prioridades de Bolsonaro
  44. Negros e brancos de alta renda moram em locais distantes e distintos
  45. Antes da Eletrobras, Brasil vivia rotina de apagões
  46. A água no Brasil: da abundância à escassez
  47. Alimentação está na pauta do novo Congresso
  48. Geração nem-nem já soma 11 milhões de jovens
  49. Projeto pretende retardar o envelhecimento do sistema imune humano
  50. Comida síria transporta imaginário de refugiados para lugar que não existe mais
  51. ONU: nenhum país consegue garantir direitos reprodutivos das mulheres
  52. Estudo destaca estreita relação entre álcool, drogas e violência
  53. Brasil avança, mas tem desafio para cumprir meta de emissão de carbono
  54. Apenas 3,3% dos estudantes brasileiros querem ser professores
  55. Na primeira eleição presidencial, Brasil teve eleitor de menos e candidato demais
  56. Oito em cada dez idosos têm percepção positiva da terceira idade
  57. Senado analisa aposentadoria especial para condutores de ambulância
  58. Metade das cidades do país ainda não dá voz aos idosos
  59. Prédio do Museu Nacional já preocupava Senado do Império
  60. Referência da história contemporânea, Constituição completa 30 anos
  61. Desemprego pauta candidatos e será desafio ao próximo presidente
  62. Em 15 anos, Estatuto do Idoso deu visibilidade ao envelhecimento
  63. 30 anos da Constituição: Principal símbolo do processo de redemocratização nacional
  64. Rebanho de bovinos e produção de leite caem, diz pesquisa do IBGE
  65. Cresce preocupação com desperdício de alimentos em todo o mundo
  66. Empresários brasileiros apostam em alimentos e bebidas saudáveis
  67. Secretário admite que pode fechar o ano sem elucidar caso Marielle
  68. Futuro presidente terá de enfrentar financiamento do SUS
  69. Apesar de aumento, menos de 40% das cidades têm política de saneamento
  70. Metade das mulheres férteis em SP usaram pílula do dia seguinte
  71. Animais criados livres no Pampa fornecem carne mais saudável
  72. Primeiro transhomem a ser operado no Brasil, João Nery prepara livro
  73. Avança o Indicador de inadimplência do consumidor; país tem 62,9 milhões de negativados
  74. Filtro colorido aumenta velocidade de leitura de crianças com dislexia
  75. Manual ensina a cuidar da saúde bucal de crianças com autismo
  76. Iniciativas do Judiciário combatem e reparam violência contra a mulher
  77. Epidemia de gripe espanhola no Brasil mata presidente, faz escolas aprovarem todos os alunos e leva à criação da caipirinha
  78. Reforma tornou ensino profissional obrigatório em 1971
  79. Museu do Ipiranga questiona os sentidos da independência
  80. Governo vai liberar recursos emergenciais para o Museu Nacional no Rio
  81. Alunos deixam ensino fundamental com desempenho pior do que entraram
  82. Câmara discute propostas polêmicas sobre orgânicos e agrotóxicos
  83. Especialistas apontam epidemia de cesarianas no Brasil
  84. Foco de instabilidade, impacto migratório é desafio em Pacaraima
  85. Há 55 anos, Senado ajudou a derrubar parlamentarismo
  86. Especialistas debatem soluções tecnológicas para ajudar o agronegócio
  87. Denúncias de feminicídio e tentativas de assassinato chegam a 10 mil
  88. Merenda escolar é vigiada no país por 80 mil “detetives”
  89. Dos 27,4 mil registros de candidaturas, 8,4 mil são de mulheres
  90. Jogadores contam histórias do preconceito enfrentado na Europa_2
  91. Subutilização da força de trabalho atinge 27,6 milhões no Brasil
  92. Ofensiva contra o lixo: país se engaja em debate sobre a coleta seletiva
  93. Seis em cada dez crianças no Brasil vivem na pobreza, diz Unicef
  94. Manifestações afros são incorporadas à cultura sem valorização dos negros
  95. Ruy Barbosa desafiou elite e fez 1a campanha eleitoral moderna
  96. Sarampo: especialista alerta sobre a importância da vacinação
  97. Casos de suicídio motivam debate sobre saúde mental nas universidades
  98. Mortes de presos aumentam 10 vezes em quase vinte anos no Rio
  99. Petróleo, combustíveis e Refis reforçam receitas da União este ano
  100. Mulheres que fizeram aborto relatam momentos de medo e desespero

Rua Vergueiro, 2949, 12º andar – cjto 121/122
04101-300 – Vila Mariana – São Paulo - SP

Contato: (11) 3043-4171