Reino Unido deixa UE e se lança em poço de incertezas

Reino Unido deixa UE e se lança em poço de incertezas

Um poço de incertezas. Esse é o panorama que se abre após 52% dos eleitores britânicos votarem pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) depois de 43 anos. Além de consequências nacionais, a decisão pode afetar o mundo todo politicamente, economicamente e socialmente

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Idealizada após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) como forma de pacificar a Europa, um dos continentes mais marcados por guerras, a União Europeia antes não permitia que nenhum país deixasse o bloco. A flexibilidade foi concedida com o artigo 50 do Tratado de Lisboa, assinado em 2007, porém, até hoje, nenhuma nação tinha decidido retroceder. Por isso, não dá para mensurar ainda as consequências da saída do Reino Unido. O que se tem são apenas previsões e, assim como as pesquisas de intenção de voto davam o “remain” (permanência) como vitorioso no referendo, poderão se provar erradas no futuro.

O resultado do referendo não é legalmente vinculante. Em tese, o Parlamento britânico, como órgão independente, pode ignorar o resultado e não iniciar as negociações para a saída do país. Mas o atual premier, David Cameron, renunciou ao cargo e argumentou que não é capaz de conduzir o país “para este novo destino”, já que ele mesmo se opunha ao chamado “Brexit”. Isso abre caminho para que um líder nacionalista assuma o posto e brigue para que a decisão do referendo seja reconhecida.
O primeiro passo é novo governo britânico enviar uma carta formal aos 27 países-membros da UE para pedir o desligamento. Em seguida, o Conselho Europeu pedirá que a Comissão Europeia negocie o acordo de saída, que, para ser concretizada de fato, precisa do aval unânime do bloco. No total, o processo de desligamento pode durar ao menos dois anos e envolverá o fim da livre circulação de britânicos pela UE, assim como a de europeus pelo território britânico.

De acordo com o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, o processo pode durar sete anos. Já o próprio governo de Londres fala em “mais de uma década”. Nas próximas terça e quarta-feira, os 27 países da UE mais o Reino Unido se reunirão para ativar o artigo 50 do Tratado de Lisboa e refletir sobre as consequências do referendo britânico, desde o mercado interno até os serviços financeiros (a única “vantagem” é que o Reino Unido é um dos poucos países que não aderiram ao euro. Por manterem a libra esterlina, o impacto da saída da UE deverá ser menor para o mercado do bloco).

Até a saída oficial do Reino Unido, toda a legislação referente à UE permanece vigente, o que tranquiliza parte da população que tem emprego, bolsa de estudo ou interesses em outros países do bloco. Os parlamentares europeus britânicos, assim como o governo nacional, também mantêm seus direitos e deveres dentro da UE, participando das discussões e decisões sobre o bloco, com exceção dos temas que dizem respeito ao próprio “Brexit”. Nesse caso, os britânicos serão apenas “observadores”. A Comissão Europeia, o Conselho Europeu e o Parlamento Europeu terão dois anos para dar o “ok” oficial par a saída do país, ato que precisa da decisão unânime dos outros 27 membros. Caso isso não ocorra dentro do prazo, é possível que a UE conceda tempo extra para as negociações.

Depois dos dois anos iniciais, outros cinco a oito anos serão necessários para os desligamentos dos serviços que hoje são interligados pelo continente, os quais precisão ser renegociados de maneira bilateral. Além disso, o “status” de Londres será reformulado, que pode sair totalmente do bloco ou permanecer como parte da Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), como a Noruega e a Suíça. O Reino Unido é a segunda maior economia da UE, atrás da Alemanha, além de possuir armas nucleares e um assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas. O país também é um histórico defensor do livre mercado e um aliado político e militar dos Estados Unidos.

Além das consequências internas para os britânicos, o “Brexit” abre um precedente dentro da UE e aumenta a pressão nacionalista no bloco, que já sofre pelo baixo crescimento econômico dos últimos anos, pelo alto índice de desemprego, pela maior crise imigratória desde a Segunda Guerra Mundial, pelo débito grego e pelo conflito na Ucrânia. Em meio a tantas incertezas, a única afirmação que pode ser feita é que o Reino Unido e a Europa iniciam uma nova fase de remodelação do continente (ANSA).

Chanceler da Alemanha, Angela Merkel.
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Merkel lamenta saída do Reino Unido da UE

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, lamentou o resultado do referendo pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE), mas disse acreditar que o bloco é forte o suficiente para lidar com a situação. Em coletiva de imprensa, Merkel declarou na sexta-feira (24), que a Alemanha tem um “interesse especial” e uma responsabilidade com o sucesso da UE e que as autoridades europeias precisam tentar uma relação próxima de Londres no futuro.

A Alemanha é atualmente, a maior economia e a mais atuante dentro da UE. Além disso, Berlim foi um dos maiores entusiastas da criação do grupo, que ajudaria em sua reintegração no continente após a II Guerra Mundial. A chanceler também lembrou que o Reino Unido continua membro da UE com “todos seus direitos e obrigações” até que as negociações sejam concluídas.

Ela destacou que as autoridades europeias não devem tomar conclusões “rápidas e simples” sobre o referendo do “Brexit”, que só acabariam criando mais divisões. Merkel ainda revelou que um encontro com o presidente da França, François Hollande, e o premier da Itália, Matteo Renzi, foi agendado para esta segunda-feira (27), em Berlim para debater a questão (ANSA).

Presidente da França, François Hollande
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Hollande: ‘é um duro teste para a Europa’

O presidente da França, François Hollande, lamentou “profundamente” a decisão pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) e disse que o bloco deverá fazer mudanças para continuar avançando. “A votação britânica é um duro teste para a Europa”, concluiu.

Em breve pronunciamento televisionado, Hollande disse que este é o momento para reforçar importantes políticas, como de segurança e defesa, proteção das fronteiras e criação de empregos (ANSA).

Boris Johnson comemora saída do Reino Unido

O líder pela campanha da saída do Reino Unido da União Europeia (UE), o ex-prefeito de Londres Boris Johnson, comemorou o resultado do referendo e disse que a nação continuará sendo uma grande potência europeia, mesmo afastada do bloco econômico. Ele ainda elogiou o primeiro-ministro David Cameron, que, contrário à saída do bloco, anunciou que deixará o cargo. É um “homem corajoso e de princípios” e um “dos mais extraordinários políticos da nossa época”, disse em coletiva de imprensa.

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Com a decisão histórica, Johnson é o mais cotado para substituir Cameron no cargo, em outubro. Ainda segundo ele, a votação “era sobre o direito das pessoas de elegerem líderes que tomem decisões importantes em suas vidas” e “elas decidiram votar para retomar o controle. Agora temos uma oportunidade gloriosa para aprovar nossas leis e fixar nossos impostos de acordo com as necessidades do Reino Unido”, afirmou, acrescentando, no entanto, que não é preciso ter pressa para deixar a UE (ANSA).

O premier David Cameron anunciou que deixará o cargo

A maioria dos britânicos decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) após uma dramática e apertada votação. O “Brexit” venceu nas urnas com 51,9% dos votos contra 48,1% do “Remain”. Calcula-se que mais de 17 milhões de pessoas votaram a favor da saída na última quinta-feira, ou seja, cerca de 1,2 milhões a mais do que os que eram a favor da permanência.

A decisão representou um duro golpe para o premier, David Cameron, a favor da permanência no bloco econômico europeu, que anunciou sua saída do cargo. “Os britânicos votaram pela saída e sua vontade deve ser respeitada”, disse em pronunciamento na Downing Street, sua residência oficial. “A negociação deve começar com um novo primeiro-ministro”, concluiu. Cameron não conseguiu superar a forte oposição do ex-prefeito de Londres, Boris Johnson, líder da campanha do “Leave”.

Papa: ‘Brexit é a vontade do povo’

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O papa Francisco, que iniciou na sexta-feira (24) uma viagem à Armênia, recebeu dentro do avião a notícia de que 52% dos eleitos britânicos votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE). “Esta é a vontade expressa pelo povo. Isso exige de todos nós uma grande responsabilidade para garantir o bem da população do Reino Unido e também o bem e a convivência de todos no continente europeu. Espero que isso aconteça”, disse o líder católico.
Francisco evitou fazer comentários mais precisos sobre o tema, apesar de sempre defender a integração na União Europeia, principalmente em momentos de crise, como a imigratória (ANSA).

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