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Mudanças no uso da terra afetam a biodiversidade e o solo, afirma estudo

em Especial
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
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Mudanças no uso da terra afetam a biodiversidade e o solo, afirma estudo

Pesquisa realizada no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba, acaba de mensurar o impacto da transformação de áreas de floresta em pastagens e de pastagens em canaviais sobre a biodiversidade do solo. A conclusão é que esse impacto é devastador sobre a macrofauna original do solo: 90% dela – formada por cupins, formigas, minhocas, besouros, aranhas e escorpiões – desapareceu por completo

Wikimedia Commons% da macrofauna do solo desapareceu na transformação de floresta em pastagens e depois em canaviais.

Peter Moon/Agência FAPESP

A pesquisa foi realizada por André Luiz Custodio Franco, durante o seu doutorado e estágio de pesquisa no exterior realizados com bolsas da FAPESP, com orientação do professor Carlos Clemente Cerri. Os resultados do trabalho foram publicados no periódico Science of the Total Environment. “Nossa intenção foi verificar como a mudança no uso da terra interfere na emissão de gases e no armazenamento de carbono no solo e, em consequência, na composição da matéria orgânica, ” diz Franco.

Invertebrados, microrganismos e fungos desenvolvem um grande papel na reciclagem do solo, graças à sua ação na decomposição da matéria orgânica. Eles compõem a microfauna do solo. Formigas e cupins – que integram a macrofauna do solo – são os principais agentes estabilizadores, evitando a erosão graças à construção de seus ninhos.

Para verificar o que acontece com a biodiversidade com a mudança no uso da terra, os pesquisadores retiraram blocos de solo na forma de cubos com 30 centímetros de profundidade. Essas amostras foram coletadas em três canaviais localizados em Jataí, Goiás, Ipaussu e Valparaíso. Nessas áreas uma parte do pasto foi convertida em cana. A equipe também coletou blocos de áreas nativa, de mata, para demonstrar a biodiversidade do solo em um sistema estável, antes do desmatamento para pastagem.

“Quando a mata nativa é convertida em pasto, todos os predadores de topo do solo, como as aranhas e os escorpiões, desaparecem”, diz Franco. “Na ausência de predadores, as populações de cupins e minhocas explodem. A quantidade de cupins no solo aumenta nove vezes. Já a de minhocas cresce 14 vezes”. Por outro lado, quando o pasto é convertido em canavial, as populações de cupim e minhocas também são eliminadasa, em decorrência da correção química do solo.

DivulgaçãoO solo nativo é ligeiramente ácido e os invertebrados e microrganismos estão adaptados para viver num ambiente de leve acidez. Como a cana precisa de um solo mais alcalino, a agroindústria introduz quantidades maciças de calcário – além de fertilizantes, herbicidas e pesticidas. “Isto torna o solo tóxico, especialmente para as minhocas”, diz Franco.

O resultado da correção química do solo e, posteriormente, da adubação química é a eliminação quase completa de toda a sua biodiversidade. Os poucos animais e microrganismos que poderiam se adaptar a um solo levemente alcalino são eliminados pelos agrotóxicos. “Cerca de 90% da macrofauna do solo desapareceu. Em termos de grupos animais, perdeu-se 40%”, diz Franco. Ou seja, o solo dos canaviais é um solo extirpado de biodiversidade – e, em consequência, instável.

Cupins e formigas são os “engenheiros do solo”, observa Franco. Eles são importantes para manter sua estabilidade. Onde há mais animais a estabilidade do solo é maior. Decorre daí que menos animais significa menor estabilidade e, por conseguinte, maior risco de erosão.

Outra questão a ser contabilizada é a perda de carbono do solo. A ação de cupins e formigas faz com que partículas de carbono sejam encapsuladas em microagregados de argila ou areia e permaneçam protegidas da decomposição por microrganismos. Já as minhocas estabilizam as partículas de carbono que passam pelo seu trato digestivo e que ficam igualmente encapsuladas, fora do alcance dos microrganismos.

A perda da macrofauna coloca em risco a estabilidade do solo e a sua capacidade de armazenar carbono, além de contribuir para a liberação de carbono na atmosfera.

Alerta para perigo de savanização da Amazônia

Acordo de Paris ainda é pouco para combater o aquecimento global, que pode trazer como pior cenário para o País a modificação do ecossistema amazônico

Projeção do aquecimento global até meados do século XXI.O aquecimento global e as consequentes mudanças climáticas são um risco muito grande para o homem. No entanto, as pessoas parecem não se dar conta disso. O Protocolo de Kyoto foi ignorado por muitos países, e o Acordo de Paris, mais recente, é considerado positivo, um passo importante para o planeta. No entanto, importantes cientistas elaboraram e acabaram de divulgar um relatório que alerta: ainda é pouco, é preciso fazer mais.

A repórter Silvana Pires ouviu um dos cientistas envolvidos nessa análise, o professor José Goldemberg, ex-reitor da USP e atual presidente da Fapesp. Ele alerta para fato de que as pessoas não atentam para a gravidade do problema, uma vez que as mudanças climáticas são lentas, embora irreversíveis. Daí a relevância de que cientistas e especialistas chamem a atenção da população e dos governos sobre a importância do problema, os quais têm se mostrado sensibilizados em relação a isso.

A China, por exemplo, depois de muita resistência inicial, passou a adotar uma outra postura a partir do momento em que o desenvolvimento do país levou a um uso crescente de carvão e de petróleo, o que acabou agravando a poluição local. Diante dessa nova realidade, o governo chinês decidiu colocar um freio no uso do carvão. O Brasil também se mostra suscetível ao perigo representado pelas mudanças climáticas, e passou a revelar preocupação com o desmatamento da Amazônia.

Segundo Goldemberg, o pior cenário que o aquecimento global pode trazer ao Brasil é a savanização da Amazônia. É que, quando se começa a desmatar em larga escala, a floresta não consegue mais se recuperar. Há um risco, portanto, de a Amazônia tornar-se um grande cerrado, o que mudaria completamente o regime de chuvas no Sul do País, afetando imediatamente a produção de energia hidrelétrica. Um outro risco seria a elevação do nível do mar.

Em nível mundial, as mudanças climáticas se fazem sentir na redução da camada de gelo na calota polar do Ártico e também no recuo da área coberta por gelo em montanhas da Europa e também da Ásia, fenômenos devidamente documentados pelos cientistas (Jornal da USP).