Guaraná tem potencial antioxidante maior do que chá verde

Guaraná tem potencial antioxidante maior do que chá verde

O chá verde é amplamente consumido devido a uma série de benefícios de uma classe de compostos químicos presente em sua formulação: as catequinas, com ação antioxidante e propriedades anti-inflamatórias, entre outras

Capa da revista Food & Function
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Pesquisa realizada na Faculdade de Saúde Pública da USP revela potencial do guaraná na prevenção de doenças cardiovasculares, entre outras.

Diego Freire/Agência FAPESP

Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da USP descobriram um concorrente à altura para a bebida, com pelo menos 10 vezes mais catequinas e velho conhecido dos brasileiros: o guaraná. Ensaios clínicos com voluntários humanos saudáveis revelaram o guaraná como importante fonte de catequinas.

Efetivamente absorvidas, elas reduzem o estresse oxidativo no organismo, relacionado ao surgimento de doenças neurodegenerativas e cardiovasculares, diabetes e câncer, inflamações e envelhecimento precoce em virtude da morte de células, entre outras condições prejudiciais à saúde e ao bem-estar. Os ensaios foram feitos no âmbito da pesquisa Bioacessibilidade, biodisponibilidade e atividade antioxidante de compostos fenólicos do Guaraná (Paullinia cupana) in vitro e in vivo, realizada com apoio da FAPESP e coordenada pela pesquisadora Lina Yonekura.

“Até então, o guaraná era visto apenas como estimulante devido ao seu alto teor de cafeína, principalmente pela comunidade científica internacional. No Brasil, também observamos que havia uma escassez de trabalhos enfocando outros efeitos biológicos do guaraná. A avaliação pioneira sobre a absorção e os efeitos biológicos de suas catequinas em voluntários humanos pode aumentar o interesse da comunidade científica, do mercado e da sociedade em geral pelo fruto como alimento funcional”, acredita Yonekura, atualmente professora assistente da Faculdade de Agricultura da Kagawa University, no Japão. O paper com os resultados da pesquisa foi destaque de capa da revista Food & Function, da Royal Society of Chemistry, do Reino Unido.

Muito além da cafeína

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Os testes duraram um mês e foram realizados em duas etapas. Para medir os parâmetros de referência dos efeitos do guaraná em voluntários saudáveis, mas com sobrepeso e risco cardiovascular ligeiramente elevado, os indivíduos foram submetidos a exames clínicos após 15 dias de dieta controlada. Nos 15 dias seguintes, passaram a consumir 3 g de guaraná em pó suspenso em 300 ml de água todas as manhãs, em jejum.

As comparações foram feitas entre os exames dos mesmos voluntários, evitando-se, assim, influências da variabilidade entre os indivíduos. O efeito agudo do guaraná foi medido uma hora após a ingestão da solução no primeiro e no último dia. Já o efeito prolongado foi avaliado quando os indivíduos estavam em jejum, também no primeiro e no último dia.

Os efeitos do consumo de guaraná ao longo dos 15 dias de intervenção foram observados por meio de marcadores do estresse oxidativo. Também foi feito um estudo detalhado da absorção e do metabolismo das catequinas, pois até o momento não havia informações na literatura científica sobre a biodisponibilidade desses compostos no guaraná.

Entre os marcadores utilizados estava a oxidação lipídica da LDL, a lipoproteína de baixa densidade – conhecida como colesterol ruim. Essencial para o bom funcionamento do organismo, a LDL é a principal partícula que carrega o colesterol para as células, função importante para a produção das membranas celulares e dos hormônios esteroides (estrógeno e testosterona). No entanto, quando oxidada, a LDL causa aterosclerose e aumenta o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Nos testes realizados por Yonekura, a LDL coletada dos voluntários após o consumo do guaraná se mostrou mais resistente à oxidação.

Outro marcador foi um ensaio cometa, técnica que mede quebras de DNA induzidas por diferentes fatores – entre eles, o estresse oxidativo. No estudo, o DNA dos linfócitos colhidos uma hora após o consumo de guaraná sofreu menos danos quando submetido a um ambiente oxidante, indicando a presença de substâncias antioxidantes ou um melhor desempenho do sistema antioxidante enzimático dessas células. “Todos esses marcadores dependem da presença das catequinas em circulação. A melhora desses parâmetros foi geralmente observada junto com o aumento da concentração de catequinas no plasma após a ingestão do guaraná, indicando que o guaraná era de fato o responsável por esse efeito”, diz Yonekura.

Além disso, conta a pesquisadora, as catequinas do guaraná melhoraram o sistema de defesa antioxidante enzimático natural das células, composto principalmente pelas enzimas glutationa peroxidase, catalase e superóxido dismutase. Juntas, elas transformam superóxido em peróxido e, finalmente, em água, protegendo assim as células de danos oxidativos causados pelo próprio metabolismo e por fatores externos. Nos testes foi observado um aumento na atividade da glutationa peroxidase e da catalase logo após a ingestão de guaraná, mantido até o dia seguinte.

“Os resultados são animadores e mostram que a biodisponibilidade das catequinas do guaraná é igual ou superior às do chá verde, cacau e chocolate, sendo suficiente para promover efeitos positivos sobre a atividade antioxidante no plasma, proteger o DNA dos eritrócitos e reduzir a oxidação dos lipídeos no plasma, além de promover um aumento da atividade de enzimas antioxidantes. Com a pesquisa, esperamos que haja um maior interesse científico pelo guaraná, já que essa é uma espécie nativa da Amazônia e o Brasil é praticamente o único país a produzi-lo em escala comercial”, afirma a pesquisadora.

Cirurgia de obesidade: mais de 10% dos pacientes voltam a engordar após o procedimento

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Giorgio Baretta (*)

No mundo há mais de um bilhão de adultos com sobrepeso e 300 milhões com obesidade segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, a obesidade é uma doença crônica que afeta cerca de 18% das mulheres e 13% dos homens. Isso representa cerca de 19 milhões de habitantes, sem contar os mais de 50% de brasileiros com sobrepeso, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.
Nos Estados Unidos, cerca de dois terços dos indivíduos são obesos ou têm excesso de peso, um em cada três norte-americanos é considerado obeso, e a outra terça parte sofre de excesso de peso crônico. Em geral 31% dos homens e 35% das mulheres sofrem de obesidade e apenas 1% destes têm acesso à cirurgia bariátrica. No Brasil, que ocupa a segunda colocação nesse tipo de procedimentos, foram realizadas cerca de 93,5 mil cirurgias bariátricas em 2015, o que representa um crescimento de 6,25% se comparado ao mesmo período de 2014. Mas o problema não acaba com a realização do procedimento, já que entre 10% a 20% dos pacientes voltam a ganhar peso com o passar dos anos, aumentando as chances de doenças associadas à obesidade como diabetes, hipertensão arterial, dislipidemia (aumento do colesterol e triglicerídeos), apneia do sono e artropatias. Além disso, ficam mais suscetíveis a sofrer com baixa autoestima e problemas psicológicos ou psiquiátricos.

O que fazer com este número cada vez maior e mais preocupante de novos obesos “de novo”?

Primeiro devemos levar em consideração os motivos pelos quais esses pacientes reganham peso. Os maus hábitos dietéticos como a ingesta abusiva de doces e álcool, o sedentarismo, a má escolha da técnica cirúrgica pelo paciente ou pelo cirurgião e o rápido esvaziamento dos alimentos do novo estômago pela dilatação ou confecção maior da anastomose gastrointestinal (costura entre o estômago novo e o intestino desviado) devem ser investigados. Uma boa entrevista com o paciente, avaliação nutricional e psicológica ou psiquiátrica no pré-operatório, bem como o incentivo à atividade física e aos retornos com a equipe multidisciplinar são de fundamental importância para evitar o insucesso da cirurgia bariátrica. Com relação à anastomose gastrointestinal, várias técnicas para redução do seu calibre vêm sendo tentadas, porém sem muitos resultados animadores. Quanto maior o calibre desta anastomose, mais rápido o esvaziamento gástrico e consequentemente maior a ingesta alimentar. O contrário é verdadeiro, ou seja, quanto menor o diâmetro desta “saída” do novo estômago operado, mais lento será o esvaziamento gástrico e mais precoce será a saciedade alimentar do paciente.
Baseado neste preceito, o Serviço de Endoscopia do Hospital VITA Batel – Endobatel vem desenvolvendo um procedimento endoscópico que visa reduzir o diâmetro da saída do estômago operado em pacientes já submetidos à cirurgia bariátrica e que estão reganhando peso. Trata-se da coagulação com plasma de argônio. O plasma de argônio ganhou importância no campo da endoscopia digestiva desde a década passada. Esta técnica promove uma termocoagulação da mucosa da anastomose gastrointestinal e consequentemente uma redução do seu calibre. Com isso, o esvaziamento gástrico é retardado e a saciedade alimentar do paciente torna-se mais precoce.
O procedimento é ambulatorial, ou seja, o paciente recebe alta logo após despertar da sedação que é realizada sob a supervisão de um médico anestesiologista. São realizadas no mínimo três sessões com intervalo de 6 semanas entre cada uma delas. Os resultados iniciais são animadores, porém o paciente deve ser encorajado a realizar atividade física e acompanhamento psicológico.
A vantagem de tudo isso é que o procedimento é minimamente invasivo, não necessitando de outra cirurgia; praticamente isento de riscos e completamente bem tolerado pelos pacientes. A ideia é que isto se torne mais uma arma no vasto arsenal terapêutico disponível no auxílio do número cada vez maior de obesos em todo mundo.

(*) É cirurgião do aparelho digestivo e especialista em cirurgia da obesidade do Hospital VITA.

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