Estudo avalia prejuízos do Plano Collor no dia a dia da população

Além do fracasso econômico, o plano gerou impactos emocionais e psicológicos que não podem ser mensurados em números

Paulo Andrade/Jornal da USP

Imagine, caro leitor, se o governo limitasse os saques de sua conta bancária a partir de amanhã. Pois bem, foi o que aconteceu no dia seguinte à posse de Fernando Collor de Melo, como presidente do Brasil, em 1990. O Plano Brasil Novo (conhecido como Plano Collor), entre outras medidas contra a inflação, limitou o saque de contas bancárias a R$ 8.300, em valores atuais, não importando o saldo existente, e sumiu com cerca de 75% do dinheiro em circulação na economia brasileira.

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Impacto do Plano Collor no cotidiano das pessoas foi estudado em pesquisa da FFLCH. O foco foi enxergar a economia como fator humano. Foto: Roberto Barroso/Arquivo/ABr

O fracasso do plano é bem explicado em pesquisas e livros de história. Em uma perspectiva diferente, seu impacto no dia a dia do cidadão comum foi estudado pela jornalista e historiadora Francine De Lorenzo Andozia, em mestrado defendido em 2019 pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP sob orientação da professora Sara Albieri.

Para a pesquisadora, há uma farta produção acadêmica sobre aspectos políticos e econômicos do plano, mas sem enxergar a economia como um fator humano. “Eu procurei olhar como aquilo foi recepcionado no dia a dia da pessoas, como foi vivenciado.”

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Sem dinheiro. Após o confisco do Plano Collor, bancos limitam saques: no Banerj da Rua do Matoso, no Rio, clientes enfrentam filas. (Fonte: http://econoleigo.com). Foto: Otávio Magalhães/06/04/1990 / Agência O Globo

Foram analisados materiais da época publicados em jornais, revistas, televisão, novelas, filmes e, principalmente, fontes visuais, como charges e cartuns. “Pelas imagens conseguimos capturar informações que os textos não fornecem. Quando se produz humor, conseguimos identificar o padrão daquele momento. Isso vai desde a utilização de palavras até coisas da rotina do dia a dia”, avalia.

Economia: um valor humano
Francine explica o dinheiro retirado das pessoas como uma representação de valores humanos. “Quando o governo impede o acesso das pessoas às poupanças, ele está impedindo, por exemplo, que a pessoa realize um sonho. Pode ser um casamento, um filho planejado, uma viagem. Ele tira comida da boca das pessoas”.

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Mulher chora na frente do BC no dia do anúncio do Plano Collor. Foto: UOL

A pesquisadora acredita que esse entendimento pode aproximar a economia de algo mais humano, que as teorias macroeconômicas não explicam. “A economia não é simplesmente um sistema de troca monetário. Ela é, na verdade, uma organização da vida. As pessoas organizam suas vidas por meio da economia. E há uma representatividade muito maior na vida das pessoas do que simplesmente receber e pagar algo”.

Prejuízos não monetários
O trabalho evidenciou que a equipe econômica de Collor ignorou os efeitos que o plano poderia causar à população. Atividades do cotidiano, como compras em lojas e supermercados, pagamento de contas, prestação de serviços, etc., foram bruscamente alteradas, ignorando-se as características culturais e comportamentais da população.

Como resultado, implicações no modo de vida, principalmente nas cidades, representado por uma perda temporária de cidadania, uma vez que o Estado retirou o direto do cidadão ao próprio patrimônio e o obrigou a cumprir compromissos anteriores às restrições. Os efeitos emocionais e psicológicos causados pelo plano, como o desespero, as angústias, tristezas e decepções, não podem ser calculados em números.

Tais prejuízos puderam ser observados em manifestações de descontentamento não organizadas, nas filas de bancos, nos bares, em cartas de jornais, sem ícones ou símbolos. A pesquisa as avaliou como uma soma de casos individuais e não um movimento coletivo, junto a um sentimento de profunda descrença da população em relação ao governo.

Para Francine, o trabalho mostra que o amadurecimento da democracia brasileira e de nós, como cidadãos, ainda estão longe do ideal. “Eu acho que olhar para isto seja uma forma de tentar aprender um pouco com o passado. Tentar não cometer os mesmos erros que já cometemos”.

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