Barreiras intransponíveis

Barreiras intransponíveis

Dissertação mostra como é difícil a inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho

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Isabel Gardenal/Jornal da Unicamp

As pessoas com deficiência ainda lidam com muitos entraves para adentrar o mundo corporativo. A Lei de Cotas, instituída no país em 1991, é uma conquista que os tem ajudado nessa inserção, mas na prática há um longo caminho a ser percorrido para que elas alcancem mais efetivamente os seus direitos. Essa lei estabelece que todas as empresas com mais de 100 funcionários devam destinar de 2% a 5% dos postos de trabalho a pessoas com deficiência, mas muitas não cumprem com seu dever e têm que pagar multas por isso.

As barreiras atitudinais (preconceitos), arquitetônicas (obstáculos no ambiente de trabalho) e de acessibilidade estão entre os principais obstáculos vividos por essas pessoas no setor empresarial, conforme estudo de mestrado da Faculdade de Educação Física (FEF). Esses aspectos mereceram especial atenção nessa investigação. Foram entrevistadas dez pessoas com deficiência, sendo cinco com deficiência visual, quatro com deficiência física/motora e uma com deficiência auditiva, para abordarem o assunto.

Mas, diferentemente do que se observa no mercado, esse estudo de caso, que avaliou o dia a dia numa instituição educacional de Campinas, mostrou que essa instituição oferece qualidade de vida aos seus funcionários. A autora da pesquisa, a enfermeira Maiza Claudia Vilela Hipólito, constatou que a instituição avaliada dá respaldo a eles, tem se preocupado com sua adaptação e tem investido no seu acolhimento.

Além disso, Maiza apontou que as barreiras atitudinais em geral vêm do ambiente externo, sobretudo num primeiro contato com a pessoa com deficiência no ambiente de trabalho. Mas, em seguida, a sensação de incapacidade é dissipada com o atendimento qualificado, rompendo com esse preconceito.

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Em relação às barreiras arquitetônicas, os entrevistados narraram que a qualidade de vida na instituição pesquisada está relacionada em grande parte à harmonia entre gestores e colegas, que é a definição de qualidade de vida no trabalho. Apenas um depoente mencionou obstáculo. Os demais narraram que, para sua deficiência, não há barreiras.

Maiza contou que estudou o tema especialmente porque tem duas tias com deficiência visual, que sempre encontraram muita dificuldade para ingressar no mercado de trabalho. Essa foi a deixa para fazer uma especialização em enfermagem do trabalho e para investigar as pessoas com deficiência em projeto desenvolvido na FEF, que é referência nessa linha e em qualidade de vida.

Lei
A qualidade de vida no trabalho das pessoas com deficiência, com foco nas barreiras atitudinais, arquitetônicas e acessibilidade, está prevista na Lei de Cotas (a lei 8.213/1991). Há uma ampla discussão na literatura acerca dessa lei, que existe há 25 anos no Brasil.

De acordo com o art. 3º da lei 13.146/2015, acessibilidade é a possibilidade e condição de alcance para utilização, com segurança e autonomia, de espaços, mobiliários, equipamentos urbanos, edificações, transportes, informação e comunicação, inclusive seus sistemas e tecnologias, bem como de outros serviços e instalações abertos ao público, de uso público ou privados de uso coletivo, tanto na zona urbana como na rural, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida.

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Essa lei, no entender da enfermeira, requer adequações, pois duas décadas se passaram e se debate muito hoje a questão da inclusão. “Na verdade, as empresas não querem pagar multa. Então contratam por exemplo pessoas com síndrome de Down e as colocam nas portas de suas empresas para darem ‘bom dia’. Essa não é a inclusão que estamos buscando”, lamentou.

Em sua opinião, a inclusão consiste em contratar essa pessoa e, ao verificar sua qualificação, extrair o seu melhor potencial. Incluir significa torná-las participantes da vida social, econômica e política, sublinhou. Na literatura, ao explorar suas atitudes, opiniões e crenças, cria-se um impacto construtivo sobre elas, suas famílias ou em locais onde tendem a residir, a trabalhar ou a ser educadas.

Um aspecto recorrente no ambiente corporativo é a qualificação. “Mas boa parte dela é adquirida no dia a dia do trabalho. Também é dever da empresa qualificar seu profissional. A maioria dos empregadores diz que não tem essa mão de obra, embora não invista nisso e nem na destituição de barreiras”, explanou.

Quando a deficiência é visual, o empregador deve fazer adaptações gerais no prédio e também para a pessoa. É preciso trocar o piso comum por um tátil. Há que se considerar ainda que não se pode adaptar os mesmos itens para pessoas com necessidades diferentes, atentou Maiza.

Um dos pontos fortes da instituição avaliada é que ela possui um grupo de inclusão. Quando contrata pessoas com deficiência, observa quais são suas deficiências, avaliando algumas necessidades para que o contratado se sinta bem-recebido e consiga exercer seu trabalho de modo mais qualificado.

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A direção também organiza palestras e cursos com os funcionários da empresa, “pois não adianta só as pessoas com deficiência se adaptarem, se ainda enfrentam barreiras atitudinais e carregam estigmas de que são incapazes e de que deveriam ser institucionalizadas. Com a superação desses obstáculos, as pessoas conseguem ocupar novos postos de trabalho e se sentirem cidadãs: com direitos e deveres”, expôs.

Modelo
Dentre as cinco pessoas com deficiência visual que trabalham nessa instituição, algumas atuam no setor de Patrimônio, outras são docentes bem-qualificadas, inclusive cursando doutorado na Unicamp. Mesmo assim, muitos empregadores têm medo de contratá-las e de que elas não estejam aptas a exercer suas funções a contento, ressaltou Maiza.

No fundo, sugeriu ela, muitos empregadores não sabem lidar com o profissional com deficiência porque esse tema não é tratado pelas escolas e nem pela sociedade. Tal obstáculo acaba se refletindo no cotidiano do mundo do trabalho.

Uma deficiente visual cega, que é recepcionista nessa instituição, relatou que as pessoas têm receio de se comunicar com ela. “Muitos conversam primeiramente com a pessoa ao lado. Depois falam comigo, e acabam achando o máximo o que faço”, afirmou ela. Para a pesquisadora, é preciso ensinar como agir com essa pessoa e aprender como auxiliá-la.

Maiza revelou que, nessa instituição, os gestores procuram diversificar os locais em que as pessoas com deficiência trabalham. As quatro pessoas com deficiência física/motora, informou, trabalham na secretaria e na biblioteca. A deficiente auditiva também trabalha na secretaria.

Havia ainda mais quatro pessoas com deficiência intelectual que não foram incluídas na amostra porque na legislação as pessoas com esse tipo de deficiência precisam de acompanhante para participar da entrevista. Mas muitos trabalham.

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A mestranda perguntou aos entrevistados o que achavam da Lei de Cotas? A maioria achava satisfatória, contudo impositiva. Gostaria que o empregador contratasse sem obrigatoriedade. Também reconheceu que, depois da lei, foi mais fácil o ingresso no mercado de trabalho. Mas muitos não conhecem a Lei de Cotas e não sabem para o que ela serve.

No Brasil, o censo do IBGE apontou, em 2010, que 24% da população brasileira tinha algum tipo de deficiência e só 0,7% estava trabalhando. “É pouco. Está aquém do esperado”, salientou a mestranda.

Investigações
No doutorado, a pesquisadora e o professor Gustavo Luis Gutierrez, seu orientador, pretendem manter o foco nas pessoas com deficiência e na qualidade de vida. “Faltam pesquisas sobre a percepção da pessoa com deficiência. Esse foi o diferencial do nosso trabalho. Em geral, na literatura, os trabalhos tratam da visão dos empregadores. Mostramos a visão das pessoas com deficiência.”

O estudo de Maiza aconteceu em 2015, ano em que aquela empresa recebeu da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) um prêmio de melhor empresa do Estado de São Paulo na inclusão da pessoa com deficiência no trabalho. Em Campinas, essa instituição está acima da porcentagem de pessoas com deficiência exigida pela lei.

Antes de Maiza começar as entrevistas no trabalho de campo, procurou validar seu instrumento: um questionário semiestruturado desenvolvido pelo seu orientador e pelo professor da FEF Paulo Ferreira Araújo. Então conversou com quatro pessoas com deficiência e uma delas trabalha com inserção de pessoas com deficiência.

A entrevistada explicou que a prefeitura tinha colocado um ônibus para levar essas pessoas ao trabalho. Com o tempo, o transporte não foi mantido, por não se conseguir organizar a iniciativa. “Isso atrapalha muito para quem não têm outra opção de transporte adaptado. Às vezes, têm que pegar até três ônibus.”

Também as ruas e calçadas são bastante esburacadas. Com isso, o deficiente visual, mesmo com ajuda de guia, pode tropeçar e cair. “Minhas tias não saem de casa por isso e acabam se restringindo muito. As barreiras são para todos os tipos de deficiência. Creio que faltam políticas públicas no município para melhorar a mobilidade”, assinalou.

Maiza acredita portanto que este estudo pode contribuir para novas reflexões acerca da qualidade de vida no trabalho de pessoas com deficiência, incluindo acesso, barreiras atitudinais e arquitetônicas, além de despertar a atenção para pesquisas sobre a percepção dessas pessoas.

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