
Brasil gera cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano
Redação
Durante muito tempo, equipamentos eletrônicos usados foram vistos apenas como itens destinados ao descarte ou esquecidos em estoques e gavetas. A exemplo do que foram os restos dos processos industriais em um passado recente, como as escórias de alto forno, o que antes era visto como lixo, e elemento poluidor, hoje é subproduto e gera receita, além de economizar sensivelmente o meio ambiente. Essa transformação ocorrida na siderurgia, e outros setores, também chega ao ecommerce. Ou melhor, o recommerce, absorvendo a mesma lógica da economia circular, no mercado de produtos seminovos e recondicionados. Com isto, demonstra-se que tais ativos podem gerar receita para as empresas, ampliar o acesso à tecnologia e contribuir para uma economia mais eficiente.
De acordo comThiago da Mata, CEO da Kwara, plataforma de recomercialização de ativos, esse movimento é impulsionado por diferentes fatores. “O aumento do preço dos aparelhos novos tornou os equipamentos recondicionados uma alternativa mais atrativa para consumidores, enquanto empresas passaram a enxergar que a renovação de computadores, celulares e outros dispositivos não precisa representar perda financeira”, destaca.
E os números testemunham a marcha da transformação. Segundo a Counterpoint Research, o mercado de smartphones recondicionados na América Latina movimenta mais de US$ 4 bilhões e deve crescer 12% em 2026, acima da média global. Entre 2021 e 2025, o volume comercializado aumentou 44%, impulsionado pela expansão de canais especializados e pela maior confiança dos consumidores.
Ao mesmo tempo, cresce um problema que evidencia o potencial desse mercado. Pelos dados da Global E-waste Monitor 2024, o Brasil gera cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, enquanto a produção mundial de resíduos eletrônicos cresce cinco vezes mais rápido do que a capacidade formal de reciclagem. Até 2030, esse volume deve alcançar 82 milhões de toneladas.
Cada equipamento descartado antes do fim de sua vida útil representa não apenas um impacto ambiental, mas também uma perda econômica. Metais, componentes e dispositivos que ainda possuem valor deixam de circular, desperdiçando recursos que poderiam continuar gerando receita e atendendo novos consumidores. Na nova economia esta é uma discussão já ultrapassada, ou pelo menos deveria.
Para algumas empresas, ainda existe a percepção de que um equipamento usado perdeu totalmente o seu valor. Na prática, muitos desses produtos continuam plenamente funcionais e podem atender outra empresa ou outro consumidor por vários anos. O recommerce cria essa conexão entre quem não utiliza mais determinado ativo e quem busca uma alternativa mais acessível.
Essa mudança também transforma a gestão patrimonial das empresas. Em vez de manter equipamentos armazenados após processos de renovação, muitas organizações passaram a incorporar a recomercialização como parte da estratégia de gestão de ativos, recuperando valor econômico e reduzindo desperdícios.
“Na Kwara, acompanhamos essa evolução diariamente. Entre 2025 e 2026, registramos um crescimento de 105% na procura por produtos seminovos e recondicionados e ultrapassamos a marca de 1 milhão de itens recomercializados. Além do impacto financeiro, esse volume evitou a emissão de aproximadamente 7,5 milhões de quilos de CO₂ equivalente e reduziu cerca de 1.350 toneladas de resíduos”, faz questão de frizar o executivo da companhia.
Sintetizando, a reciclagem continua sendo essencial, mas deve ser o destino do equipamento apenas quando ele realmente não puder mais ser utilizado. Antes disso, existe um enorme potencial de reúso, recondicionamento e revenda, capaz de preservar o valor dos produtos, reduzir custos para empresas e consumidores e fortalecer uma economia cada vez mais circular.



