Reavaliando a estratégia das Cadeias Globais de Valor

Arnaldo F. Cardoso (*)

Os processos de fragmentação e internacionalização da produção orientados pela busca de redução de custos e ganhos de competitividade, condições para a participação nas Cadeias Globais de Valor (CGV), estiveram nas últimas décadas no centro das estratégias de empresas e nações. Contudo, após os últimos dois anos sob a pandemia, esse modelo de organização da produção e distribuição global foi inescapavelmente posto em xeque.

Uma forma de avaliar uma Cadeia Global de Valor é identificar o número de produtos intermediários que participam do comércio internacional. No começo dos anos 2000, o percentual médio mundial era de 20% e hoje passa dos 40%, o que deu lugar para a expressão made in the world.

  1. – Vantagens e desvantagens das CGV’s – A inserção de um país — seus vários setores produtivos — em uma cadeia costuma exigir uma série de medidas que vão desde a redução na cobrança de impostos, passando por flexibilizações das legislações trabalhista e ambiental.

Muitas vezes o alinhamento de políticas públicas com demandas individuais de setores produtivos visando a participação no mercado internacional e das CGV’s impedem a concepção de uma política industrial integrada para o país.

Consensos já foram formados de que a participação em CGV’s em posição subalterna não propicia ganhos de inovação, desenvolvimento da mão-de-obra nacional, agregação de valor e ascensão na própria cadeia.

  1. – O apagão logístico de 2021 – Nos últimos dois anos, o mundo viveu um chamado apagão logístico que reforçou a necessidade de ser repensado o modelo de fragmentação e internacionalização da produção. Em um ambiente de elevada incerteza global, vivemos choques de demanda negativos e positivos, com suspensão de pedidos e queda de compras e, na sequência, choques de oferta negativos, com crise de abastecimento.

Faltaram insumos, matérias-primas, componentes, contêineres, modais disponíveis de transporte, provocando escassez de produtos, atrasos em entregas, fretes nas alturas e inflação em todo o mundo. Forçosamente, esses choques exigiram um repensar as cadeias de suprimentos e a adoção de novas estratégias, sendo uma delas, o reforço de cadeias locais e mais resilientes, com atenção sobre cada elo.

  1. – O exemplo da Itália – A revista britânica “The Economist” elegeu a Itália como “país do ano” de 2021, afirmando não ser uma premiação ao “maior, mais rico ou mais feliz país”, mas sim para aquele que “mais evoluiu em 2021”. Além de conseguir razoável estabilidade política, elevados índices de vacinação de sua população, o PIB italiano cresceu 6,5%, o melhor resultado desde 1976.

A revista avaliou que “por causa de governos fracos, os italianos eram mais pobres em 2019 do que em 2000. Mas neste ano a Itália mudou” e se referindo ao Primeiro-Ministro Mário Draghi como “competente e internacionalmente respeitado” ressaltou a importância do diálogo político qualificado para o bom enfrentamento dos problemas nacionais.

  1. – Revendo estratégias – A Itália, país com tradição no trabalho artesanal e valorização do produto de origem, tem assistido a uma onda de revalorização do fatto a mano que converge com a necessidade de reorganização de suas cadeias de produção e distribuição.

Exemplos disto podem ser vistos na indústria alimentícia e sua cadeia agroalimentar e na indústria da moda, com sua extensa cadeia produtiva, envolvendo desde a indústria têxtil até os grandes ateliês onde o design italiano brilha.

  1. – A indústria alimentícia e a preocupação com a segurança alimentar
    No setor da indústria alimentícia, a pandemia da covid-19 foi vista como um acelerador da insegurança alimentar e nutricional, exigindo um repensar do futuro da alimentação, do campo à mesa.

No início de abril de 2020, o alarme lançado em conjunto pelas agências internacionais FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), OMS (Organização Mundial da Saúde) e OMC (Organização Mundial de Comércio) de que existia “o risco de escassez de alimentos no mercado mundial, devido a perturbações derivadas da covid-19 no comércio internacional e nas cadeias de suprimentos alçou ao primeiro plano a questão da segurança alimentar entre as preocupações de vários governos.

Naquele momento, a Itália, que é a principal potência agrícola da Europa, era o epicentro da pandemia no continente e enfrentava diversos problemas para a manutenção de sua cadeia produtiva, tanto na produção quanto no transporte, distribuição e comércio. Entidades representativas do setor passaram a discutir caminhos tendo como ponto de partida a compreensão de que sistemas alimentares mais equitativos, saudáveis e ecológicos devem ser buscados com atenção direcionada a cada elo da cadeia produtiva, suas necessidades e impactos ambientais, econômicos e sociais.

  1. – As cadeias curtas – As cadeias curtas e as redes agroalimentares já se encontravam na agenda do setor há vários anos e em diversos países. Há exitosos exemplos de que o encurtamento de cadeias possibilitou a valorização dos produtos de origem local, a inovação das técnicas de cultivo, manejo e comercialização, além de uma maior proximidade com o consumidor final.

As tecnologias disponíveis possibilitam soluções para os desafios logísticos no atendimento da necessidade de escala. Também pode-se afirmar as vantagens para o desenvolvimento econômico local, com melhora na renda de pequenos e médios agricultores, geração de empregos, preservação ambiental, além de proporcionar alimentação mais saudável aos consumidores.

  1. – No radar da indústria da moda – As mudanças na percepção do consumidor e demandas por valorização do produtor local, não passaram despercebidas pelo radar da poderosa indústria da moda. Marcas como Gucci e Armani, que nas últimas décadas adotaram a estratégia das cadeias globais de valor, particularmente com contratos de produção com grandes oficinas asiáticas, recalibraram o peso da elegância e do rigor em suas coleções e o desejo de muitos consumidores por uma moda mais artesanal refletindo uma maior responsabilidade social e ambiental.

E não são só as gigantes que estão atentas a essas mudanças. Estudos da Comissão Europeia feitos em 2020 destacam a importância das PME’s que, na Itália empregam cerca de 45% da mão-de-obra do setor da moda. Como resposta conceitual a todos esses acontecimentos que impactaram a vida das sociedades em todo o mundo nos últimos anos, viu-se ganhar espaço o conceito de glocalização, consistindo numa abordagem que mantém as especificidades locais, ao mesmo tempo em que se abre para um mercado global.

Em 2022, o mundo precisará de mudanças significativas. Se os desafios são grandes, é certo que só com ousadia e envolvimento de todos os atores sociais, governo, empresas e cidadãos é que as respostas adequadas serão encontradas.

(*) – É cientista político, pesquisador, escritor e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, campus Alphaville.

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