Open Banking ou Open Data?

Recentemente, o Banco Central do Brasil implantou o Sistema Open Banking, para que tanto os investidores quanto os tomadores de empréstimos possam acessar taxas e condições ofertadas pelos diversos atores do Sistema Financeiro Nacional, mesmo que não sejam clientes dessas instituições.

Por meio desse sistema, o cliente pode simular operações e receber ofertas de muitos agentes financeiros, podendo comparar as condições ofertadas, gerando maior transparência ao sistema e permitindo maior diversidade de escolha para o consumidor de serviços bancários.

É notório que os grandes bancos de varejo têm acesso a maior parte desses consumidores e naturalmente são também os mais lembrados ao se buscar esse tipo de serviço. Enquanto isso, centenas de empresas, menores e/ou mais jovens, que também compõem o mercado financeiro, têm muita dificuldade para competirem com os grandes players, ainda que possam ofertar condições de operações muito mais atraentes para o mercado consumidor.

O Open Banking tem como missão equalizar esse acesso, permitindo que o cliente coloque as ofertas lado a lado, propiciando assim, uma participação mais justa e equânime entre os players.

O problema começa no fato de que as ofertas não podem ser as mesmas para todos os consumidores, pois dependem de informações inerentes à operação pretendida, assim como dependem de informações complementares, sobre o cliente que está realizando a cotação.

Dessa forma, o cliente que possui mais riscos ao contrair um empréstimo, terá que enfrentar taxas mais altas, menores prazos e mais garantias, ao passo que um cliente com menor risco, poderá se beneficiar de menores taxas, valores de parcelas mais baixos, maior limite, maior prazo e menos garantias exigidas.

Fica claro que não é possível para esses players apresentar taxas e condições de prateleira, que sejam adequadas para todos os tipos de clientes. Então, só é possível fazer com que esse sistema funcione, se os agentes financeiros conhecerem o perfil do cliente que está efetuando a cotação.

Estou dizendo que mais de mil empresas do Sistema Financeiro Nacional, terão acesso às informações financeiras de todos os consumidores de serviços bancários que solicitarem cotações, para que possam gerar as respectivas ofertas.

Esse é um compartilhamento de dados inédito no sistema financeiro, o qual deverá seguir as regras da Lei Geral de Proteção aos Dados (LGPD), mas que poderá inundar o mercado de informações valiosas sobre os clientes de uns e potenciais clientes de outros.

Funciona assim: você é cliente do Banco A, possui conta corrente e alguns serviços adicionais. Você ouviu dizer que a FinTech B está com ótimas taxas para financiamento de veículos. Então você entra em contato com essa FinTech e autoriza o Banco A que envie suas informações para eles, a fim de gerarem a cotação personalizada. Essa autorização é válida por doze meses. Se você fizer o mesmo com as empresas C, D e E, todas terão seus dados por doze meses, ainda que você só feche negócio com uma delas, ou com nenhuma delas.

Dessa forma, você passa a ser o maior investimento em inteligência de mercado de uma empresa financeira, pois ao fazer essa autorização, estará entregando para essa empresa, dados que antes eram de conhecimento apenas do Banco A.

Ainda que você possa revogar essa autorização, quem vai se lembrar de fazer isso, uma por uma, após cotar com meia dúzia de empresas. Então, expandindo esse efeito para milhares de cotações sendo realizadas todos os dias, em breve os agentes que receberem esses pedidos de cotação, terão os dados de milhões de clientes, incluindo seus perfis financeiros, scores e tudo que precisam para ajustarem suas ofertas.

O lado bom: mais transparência e maior concorrência deve trazer melhores condições para os clientes. O lado ruim: seus dados e tornam muito mais vulneráveis à vazamentos ou a algum desrespeito ou simples negligência em relação à LGPD. Por isso, fique de olho!

Com graduação em Engenharia, pós-graduações em Marketing e Computação Aplicada à Educação, Mestrado em Educação Matemática e Doutorado em andamento na mesma área, no Brasil e na Espanha, Luis Pacheco tem experiência no mercado financeiro e em empresas digitais, atua como professor no ensino superior, como pesquisador, founder e mentor de startups, autor de conteúdo especializado e YouTuber: youtube.com/c/LuisFernandoPachecoPereira

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