
Por muitos anos, acreditamos que a decisão de um estudante sobre qual carreira seguir era resultado de uma combinação relativamente simples: aptidões pessoais, influência familiar e informações disponíveis sobre cursos e profissões. Mas será que ainda é assim?
Há alguns meses, durante uma palestra para estudantes do Ensino Médio, uma mãe levantou a mão e fez uma pergunta que ficou comigo por muito tempo: “Quem realmente influencia a escolha profissional dos nossos filhos hoje?”
A resposta parecia óbvia. Em um mundo dominado pelas redes sociais, poderíamos imaginar que os influenciadores digitais, os algoritmos ou até mesmo a Inteligência Artificial ocupassem esse papel. Afinal, nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca foi tão fácil pesquisar uma profissão, assistir ao dia a dia de um profissional ou conversar com alguém do outro lado do mundo.
Mas, quanto mais eu refletia sobre essa pergunta — e, principalmente, quanto mais avançava na pesquisa que desenvolvi durante o meu mestrado — mais percebia que existe um influenciador extremamente relevante que permanece quase invisível nas estratégias das instituições de ensino superior: o professor.
Essa constatação me chamou atenção por um motivo simples. Universidades privadas investem milhões de reais todos os anos em campanhas publicitárias, redes sociais, eventos, visitas a escolas e produção de conteúdo para atrair estudantes. Entretanto, raramente direcionam esforços para compreender ou fortalecer o relacionamento com aqueles que acompanham esses jovens diariamente durante um dos períodos mais importantes de suas vidas.
O professor ocupa uma posição única. Diferentemente de um anúncio ou de uma campanha de marketing, sua influência é construída ao longo de meses ou anos, dentro de uma relação baseada em confiança. Ele observa talentos, acompanha dificuldades, incentiva descobertas e, muitas vezes, é uma das primeiras pessoas a perceber potenciais que o próprio estudante ainda não reconhece.
É importante destacar que não estou defendendo que professores escolham profissões pelos alunos. Muito pelo contrário. A escolha continua pertencendo ao estudante e à sua família. O que proponho é uma mudança de perspectiva: reconhecer que o professor frequentemente atua como um co-influenciador desse processo, ajudando a ampliar horizontes, validar interesses e apresentar possibilidades que talvez nunca fossem consideradas.
Essa percepção torna-se ainda mais relevante quando pensamos nas chamadas carreiras emergentes. Profissões ligadas à Inteligência Artificial, experiência do usuário, ciência de dados, realidade estendida, criação de conteúdo digital, cibersegurança ou design de experiências simplesmente não faziam parte do imaginário coletivo há poucos anos. Muitos pais desconhecem essas áreas. Muitos estudantes também. E, em diversos casos, os próprios professores ainda estão se atualizando para compreender como essas profissões funcionam e quais competências exigem.
Isso nos leva a uma reflexão importante. Se queremos preparar jovens para um mercado em constante transformação, talvez precisemos investir menos em convencer estudantes sobre qual universidade escolher e mais em apoiar professores para que possam orientá-los de maneira cada vez mais qualificada.
Essa ideia dialoga diretamente com um conceito bastante discutido por Pierre Bourdieu ao analisar a influência das instituições sociais na formação das escolhas individuais. A escola não é apenas um espaço de transmissão de conhecimento. Ela também contribui para a construção de expectativas, valores e projetos de futuro. Mais recentemente, estudos sobre influência social e tomada de decisão mostram que relações de confiança continuam exercendo papel decisivo mesmo em ambientes altamente digitalizados.
Na prática, isso significa que campanhas de marketing, por mais sofisticadas que sejam, dificilmente substituem a credibilidade construída por um professor que acompanha um estudante durante anos.
Talvez estejamos diante de uma mudança importante no próprio conceito de marketing educacional. Durante muito tempo, o foco esteve na comunicação direta entre universidades e futuros alunos. Hoje, acredito que esse modelo precisa ser ampliado. O processo de decisão começa muito antes da inscrição em um vestibular. Ele acontece nas conversas em sala de aula, nas atividades de Projeto de Vida, nos conselhos dados após uma apresentação, nas dúvidas compartilhadas durante o intervalo e nas relações de confiança estabelecidas ao longo da jornada escolar.
Isso não significa transformar professores em agentes comerciais. Pelo contrário. Significa reconhecê-los como parceiros estratégicos na missão de ampliar repertórios, desenvolver pensamento crítico e preparar estudantes para fazer escolhas mais conscientes.
Como profissional de marketing educacional, essa reflexão mudou profundamente minha forma de enxergar o relacionamento entre escolas e universidades. Passei a acreditar que as instituições que mais crescerão nos próximos anos não serão necessariamente aquelas que fizerem as maiores campanhas publicitárias. Serão aquelas capazes de construir comunidades de aprendizagem, fortalecer vínculos com educadores e contribuir genuinamente para o desenvolvimento de estudantes e famílias.
Talvez o maior influenciador das escolhas profissionais nunca tenha sido aquele que aparece na tela do celular.
Talvez ele continue entrando em sala de aula todas as manhãs.
E talvez esteja na hora de começarmos a reconhecê-lo como tal.
Referências
BOURDIEU, P. The Forms of Capital. In: Richardson, J. (Ed.). Handbook of Theory and Research for the Sociology of Education. New York: Greenwood, 1986.
HATTIE, J. Visible Learning: A Synthesis of Over 800 Meta-Analyses Relating to Achievement. Routledge, 2009.
Com graduação em Arquitetura e Urbanismo, pós graduação em Administração, MBA em Empreendedorismo e Inovação, e Master in Digital Marketing, Carol Olival tem um perfil multidisciplinar e transita com segurança pelos mercados de educação, marketing, vendas e treinamento. Carol operou escolas próprias de inglês por 10 anos, e hoje é Community Outreach Director da Full Sail University, responsável pela criação e manutenção de comunidades internacionais para a universidade através da divulgação das imensas possibilidades que as carreiras na economia criativa oferecem.




