A nova crise na cadeia de suprimentos mundial

Em meio a mais um confinamento imposto pelo governo de Xangai, por causa de aumentos de casos de covid e da política conhecida como “covid zero”, o porto de Shangai, considerado o maior porto do mundo em volume de mercadorias transportadas, encontra-se inativo. Para entender melhor o que isso significa, para efeitos de comparação, enquanto o porto de Santos – o maior porto do Brasil – tem capacidade de 3 milhões de contêineres, o porto de Xangai comporta 40 milhões de contêineres. Além desse porto, a China tem pelo menos dez portos com capacidade superior à do porto de Santos. Todos sofrendo direta ou indiretamente os efeitos das restrições de circulação.

Estima-se que o porto de Xangai é responsável por 17% da movimentação mundial de contêineres e 27% das exportações chinesas.

Soma-se a essa situação a guerra na Ucrânia, que impacta a navegação pelo Mar Negro e, mais uma vez, essa combinação de fatores já está afetando a cadeia de suprimentos mundial, com maior tempo para a movimentação de cargas e custos aumentando. O transporte médio de um contêiner custava, antes da pandemia, US$ 2 mil. Hoje está em US$ 12 mil. O custo de um navio em um porto pode chegar a US$ 50 mil por dia, o que acabará refletindo nos preços das mercadorias e dos produtos acabados.

Esse novo confinamento se deve ao aumento exponencial de casos de covid no leste da China e à política adotada, que determina que todo cidadão diagnosticado cumpra uma quarentena. É o pior cenário de novos casos desde o início da pandemia, segundo as autoridades chinesas.

O confinamento dificulta a movimentações de caminhões e trens, que levam as mercadorias para o porto ou do porto a outros locais. Nos portos, além da falta de recursos para operação de guindastes, há poucos funcionários para as atividades de processamento documental e para inspeções. Com isso, milhares de contêineres cheios de mercadorias estão se acumulando nos portos. Embora os portos permaneçam operando, estão cada vez mais sobrecarregados. Estima-se uma redução de até 50% nos caminhões disponíveis em Xangai e de 70% da força de trabalho em atividades portuárias. Embarcações também estão se acumulando na costa e nos canais ao redor do porto, esperando por até 50 dias para atracar, mantendo outros milhares de contêineres inativos, o que também agrava a carência desse insumo.

Especialistas em logística estimam que os efeitos desse congestionamento de embarcações e de contêineres deva durar até o fim do segundo trimestre, mesmo que a situação seja normalizada imediatamente. Os principais produtos exportados por Xangai incluem máquinas de lavar, aspiradores, painéis solares, componentes eletrônicos e têxteis. Algumas indústrias, como a Volkswagen e a Tesla, já tiveram que interromper temporariamente suas atividades por falta de peças e insumos. A situação é tensa no setor de refrigerados, pois os atrasos aumentam o risco de deterioração e consequente perda de carga. Empresas de transporte marítimo já optaram por “pular” o porto de Xangai em suas rotas. Dessa forma, aumenta a preocupação quanto ao impacto inflacionário no mundo todo. Os preços de muitos produtos levarão algum tempo para se estabilizar, com efeitos inflacionários potencializados pelos embargos econômicos e sanções impostas à Rússia e pela escassez de produtos antes produzidos na Ucrânia. Tudo isso, em um momento em que o mundo mal saía de uma situação crítica de pandemia, após dois anos de confinamentos e restrições e a cadeia de suprimentos mundial estava começando a se normalizar.

Com graduação em Engenharia, pós-graduações em Marketing e Computação Aplicada à Educação, Mestrado em Educação Matemática e Doutorado em andamento na mesma área, Luis Pacheco tem experiência no mercado financeiro e em empresas digitais, atua como professor no ensino superior, como mentor de startups, como pesquisador e é autor de conteúdo especializado.

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