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Talento nasce em todos os CEPs. O país ainda não sabe o que fazer com ele

em Destaques
quinta-feira, 30 de abril de 2026

O Brasil desperdiça talento em escala industrial. Não por falta de gente capaz, mas por um sistema que transforma oportunidade em herança e trata o ponto de partida como destino. O resultado aparece na mobilidade social travada. Segundo a OCDE, no Brasil, famílias entre os 10% mais pobres levariam nove gerações para alcançar a renda média, quase o dobro da média dos países da organização.

Esse dado dá nome ao problema. A loteria do nascimento segue organizando o futuro com antecedência, definindo quem terá escola que abre portas e quem terá uma escolarização que não protege do básico e, muitas vezes, não desafia nem os poucos que conseguem ir além. Quando a educação opera como herança de classe, o país perde duas vezes. Perde porque deixa milhões abaixo do mínimo. E perde porque produz um topo minúsculo, com alto desempenho concentrado onde já há mais recursos.

Os números internacionais deixam isso evidente. No PISA 2022, cerca de 1% dos estudantes no Brasil atingiu os níveis 5 ou 6 em matemática, patamar associado a alto desempenho, enquanto a média da OCDE ficou em 9%. Formamos poucos alunos no topo da curva e, com frequência, eles chegam lá puxados por renda, repertório e rede. Talento existe em todos os CEPs. Oportunidade, não.

É por isso que a discussão sobre meritocracia costuma falhar no Brasil. Antes de cobrar desempenho, é preciso garantir condições. Não faz sentido exigir que jovens com rotinas, infraestrutura e apoios completamente distintos disputem como se estivessem na mesma linha de largada. Sem equidade, meritocracia vira um discurso confortável para justificar desigualdades previsíveis.

A desigualdade também tem um custo real e imediato, que raramente entra no debate. Rebeca Andrade já relatou que quase deixou de treinar por causa do custo da passagem. Um detalhe prosaico teria nos feito perder uma campeã olímpica. Quantas “Rebecas” acadêmicas ficam pelo caminho por falta de transporte, alimentação, estabilidade mínima e alguém que ajude a construir as pontes certas na hora certa?

O Brasil precisa trabalhar em duas frentes ao mesmo tempo. A primeira é estrutural e inegociável, melhorar a escola pública com qualidade, permanência e aprendizagem. A segunda é urgente: criar mecanismos de identificação, aceleração e suporte para talentos de baixa renda agora, porque quem está hoje no sistema não pode esperar cinco ou dez anos até que a melhora chegue. Nesse intervalo, a vida passa e o “bonde” vai embora.

Esse esforço não é elitizar a educação. É democratizar o topo. Um país grande não pode aceitar que excelência seja exceção estatística e, pior, previsível por origem social. Se queremos encurtar as nove gerações da ascensão social, precisamos tratar educação como direito, não como patrimônio de família, e construir um pacto de corresponsabilidade com setor privado, empresários e sociedade civil. Não basta indignação. É preciso sair da arquibancada e colocar energia em soluções que criem condições concretas, ampliem redes e transformem potencial em futuro.

(Fonte: Bartira Almeida, fundadora do Instituto Ponte).

Saiba o que é densidade de talentos e como levar conceito para sua empresa – Jornal Empresas & Negócios