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Planejamento começa na lancheira: como falar de dinheiro com os filhos

em Destaques
sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Reajustes escolares e inflação se tornam aliadas na missão de formar jovens mais preparados financeiramente

Uma pesquisa recente com 308 instituições de ensino aponta que, em média, ter um filho em escola particular ficará 9,8% mais caro no próximo ano, quase o dobro da inflação projetada de 4,8%. Mais de um terço das escolas entrevistadas afirmaram que aplicarão um reajuste de 10% nas mensalidades.

“Os reajustes no início do ano refletem não apenas a inflação, mas também investimentos em infraestrutura e a valorização dos professores, que correspondem a grande parte do orçamento escolar”, explica Thiago Godoy, especialista em Educação Financeira e fundador da Bem Educação.

Além disso, muitos colégios ainda tentam recuperar perdas sofridas durante a pandemia, seja com descontos aplicados anteriormente ou com a evasão de alunos. Mesmo assim, a lucratividade média do setor deve se manter em torno de 14%.

Professores valorizados, educação valorizada – O aumento dos salários dos professores é um dos principais fatores do reajuste das mensalidades. Com a valorização da carreira docente, as escolas buscam reter profissionais qualificados e investir em novas metodologias.”Quando professores são bem remunerados, a qualidade do ensino melhora. E explicar isso aos filhos também mostra que investir em pessoas é investir no futuro”, comenta Thiago Godoy.

Além do salário, escolas investem em infraestrutura, tecnologias educacionais e disciplinas alinhadas às tendências de mercado, como programação e educação financeira, temas cada vez mais necessários na sociedade brasileira. Para os pais, entender esses fatores ajuda a contextualizar os aumentos e valorizar o ensino oferecido. “É fundamental que a criança perceba que educação é um investimento e que é prioridade”, reforça o especialista.

Planejamento financeiro familiar – Diante de reajustes anuais, famílias precisam se preparar financeiramente. O aumento das mensalidades impacta diretamente o orçamento doméstico e exige planejamento para que outros gastos não sejam comprometidos. “Conversar com os filhos sobre dinheiro, mostrar como priorizar gastos e estabelecer limites é uma forma prática de educação financeira”, explica Thiago Godoy. O especialista complementa que situações do dia a dia, inclusive ajustes que os pais precisam fazer no orçamento e as definições de prioridades da família, são oportunidades de falar sobre finanças com os filhos.

Incluir crianças e adolescentes nesse tipo de diálogo ajuda a criar desde já consciência sobre consumo e responsabilidade, pois mesmo que o aumento seja esperado, a surpresa com o valor final pode dar aquele susto se não houver planejamento.

Prioridades de consumo desde cedo – Aumento de gastos e ajustes no orçamento são oportunidades de ensinar prioridade de consumo para os pequenos. Nem tudo pode ser comprado de imediato, e é necessário avaliar o que é essencial e o que é supérfluo. “Quando a criança aprende a priorizar suas escolhas desde cedo, ela desenvolve mais facilidade para lidar com orçamento e dinheiro ao longo da vida”, afirma Thiago Godoy.

“A criança normalmente não entende porque o pai diz que não tem dinheiro para um brinquedo, mas vai no mercado e tem dinheiro para comprar arroz e feijão. Por isso é tão importante trabalhar esse senso de importância e prioridades com ela. Claro, com um discurso adequado a idade da criança ”, diz Godoy.

Pais podem usar exemplos do cotidiano, como decidir entre brinquedos, passeios ou cursos extras, para mostrar a importância da escolha consciente. Isso reforça a prática de planejamento e reduz a frustração com limites financeiros. “Planejamento não significa apenas cortar gastos, mas entender o que realmente faz sentido investir”, acrescenta o especialista.

Educação financeira como hábito – Incluir finanças no dia a dia das crianças ajuda a criar hábitos saudáveis. Pequenos exercícios, como anotar despesas de mesada ou planejar o uso de dinheiro, tornam o aprendizado prático.

“Não se trata de ensinar matemática, mas de ensinar escolhas inteligentes. Quanto antes a criança perceber a relação entre esforço, valor e gasto, mais preparada estará”, comenta Thiago Godoy. Além disso, essas práticas fortalecem o diálogo entre pais e filhos e permitem que a família enfrente ajustes de orçamento com menos estresse. Educação financeira deixa de ser apenas teoria e se torna ferramenta para decisões reais. “Quando a criança entende que dinheiro tem limites e que escolhas são necessárias, ela desenvolve autonomia e responsabilidade”, reforça Thiago.

Olhando para o futuro – Com a inflação acumulada de 5,35% nos últimos 12 meses, segundo o IBGE (junho/2025), não será apenas o reajuste escolar que irá pesar no bolso das famílias.
“Preparar os filhos financeiramente é tão importante quanto prepará-los academicamente. Eles precisam entender que custos podem variar e que escolhas conscientes fazem diferença”, afirma Thiago Godoy. Em um cenário de inflação, a educação financeira familiar é a melhor forma de garantir que as crianças desenvolvam habilidades para lidar com dinheiro de forma consciente e responsável.