Os pilotos sumiram? Como encarar a falta de mão de obra qualificada

Roberto Vilela (*)

Não é de hoje que empresas de diferentes portes e segmentos sofrem com o desafio de preencher suas vagas. A mão de obra qualificada é um problema presente em todas elas, até mesmo em marcas globais consideradas o sonho de qualquer profissional.

Pesquisa da consultoria ManpowerGroup revelou que a escassez de profissionais qualificados tem uma média mundial de 76% – no Brasil, o índice chega a 81%, colocando o país na nona posição do ranking de locais com maior dificuldade de preencher vagas. Uma análise mais atenta a este cenário nos traz algumas respostas sobre o porquê de não encontrarmos profissionais no nível de exigência e preparo de muitas vagas.

A primeira questão é a própria evolução do mercado, que tem sido ainda mais rápida e dinâmica nos últimos anos. Muitas das vagas e carreiras para as quais nos preparamos ao longo de nossa formação sequer existem mais. Em contrapartida, diversas outras atribuições foram surgindo, impulsionadas pela tecnologia e novos formatos de trabalho e de vida.

Assim, as formações ainda incipientes e o não acompanhamento da evolução da própria carreira ou setor por muitos profissionais, criou um hiato entre como se formam os colaboradores e o que a empresa realmente precisa. Um segundo fator é a popularização dos modelos híbridos de trabalho. Abraçado por muitos nos últimos anos, agora o home office se tornou quase que um pré-requisito para muitas pessoas, o que automaticamente exclui de suas listas de pretensões trabalhos que não podem oferecer este modelo de atuação.

Ou seja: ambientes que necessitam do profissional presencialmente sofrem ainda mais com a escassez de mão de obra qualificada. Quem está neste patamar, acaba escolhendo o regime que mais lhe agrada – e para a maioria das pessoas, o híbrido tem sido prioridade.

Em terceiro lugar, a redução da ambição profissional acaba contribuindo para o cenário desafiador de contratações. Se antes muitos profissionais priorizavam a carreira para garantir estabilidade e recursos para adquirir os bens materiais dos sonhos, hoje boa parte deles prioriza a saúde mental, a rotina com a família e qualidade de vida, mesmo que isso exija uma vida mais simples. Estes novos hábitos estão cada vez mais presentes.

Para se ter uma ideia, o número de jovens com carteira de habilitação caiu 10% nos últimos seis anos. Isso porque eles priorizam outros meios de transporte a fim de não arcarem com a despesa de um carro próprio. Para esse profissional, entrar em uma competição acirrada por promoção, quando essa lhe exige mais do que está disposto a oferecer, está fora de cogitação.

Olhando para o espectro empresarial, os novos hábitos e posicionamentos exigem do empregador uma postura inovadora. Não se pode apenas investir em um bom kit de onboarding e esperar que isso seja suficiente para atrair e motivar o colaborador. Uma das ações que precisa ser repensada e trabalhada com urgência é a colaboração entre empresas de um mesmo setor.

Seja para a formação de mão de obra, seja para a criação de novos modelos de trabalho, essa união de concorrentes será fundamental para reduzir a rotatividade – quantas vezes vemos os mesmos profissionais indo e voltando nas mesmas empresas? – e criar ambientes que prezem pelo crescimento da oferta de mão de obra. É preciso, portanto, baixar a guarda e unir forças.

Investir em relações próximas, criar formatos de conexão em que o colaborador faça cada vez mais parte das decisões. Repensar modelos de trabalho e de remuneração, onde especialistas sejam reconhecidos por suas habilidades sem que, necessariamente, tenham que assumir um cargo de gestão. É fundamental potencializar as características que o colaborador tem de melhor e também apoiá-lo para que entenda que é preciso evoluir junto com o mercado.

Mais do que nunca, precisamos de empresas e pessoas que sejam agentes de transformação para incentivar que bons profissionais saiam de seus quartos, saiam de trás das telas dos computadores e também abracem um movimento de compartilhamento de experiência e conhecimento para podermos mudar esse contexto.

(*) – É consultor empresarial e mentor de negócios (www.orobertovilela.com.br).

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