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Orçamento rígido é risco para 2027: especialista explica como IA traz flexibilidade financeira às empresas

em Destaques
sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Montar o orçamento de 2027 com uma fotografia da economia brasileira feita no segundo semestre de 2026 é assumir que as principais variáveis do negócio permanecerão estáveis até dezembro do próximo ano. Não vão. O IPCA desacelerou de 0,16% em junho para 0,07% em julho e acumula 4,44% em 12 meses, segundo o IBGE, enquanto a produção industrial recuou 0,2% em maio depois de quatro meses consecutivos de alta. Ao mesmo tempo, o Banco Central mantém a política monetária restritiva e o ambiente externo adicionou uma variável concreta ao planejamento das empresas brasileiras com as novas medidas tarifárias dos Estados Unidos sobre produtos do país. Nesse ambiente, o erro não está em errar uma previsão. O erro está em construir um orçamento que não possa ser alterado rapidamente quando a previsão deixar de fazer sentido.

O planejamento financeiro ainda carrega uma contradição difícil de justificar. A empresa passa meses consolidando informações para chegar a um número que perde valor justamente quando as condições que sustentaram sua construção mudam. A própria pesquisa Focus do Banco Central mostra por que esse modelo ficou mais frágil. As expectativas para inflação, juros, câmbio e crescimento são atualizadas continuamente pelo mercado, e não uma vez por ano. O orçamento corporativo deveria obedecer à mesma lógica. Se uma alteração na taxa de juros muda o custo de uma dívida, se uma oscilação cambial altera o preço de um insumo ou se uma mudança na demanda modifica a necessidade de estoque, a consequência financeira não deveria esperar a próxima reunião anual de orçamento para aparecer. O número precisa ser recalculado no momento em que a premissa muda, porque é nesse intervalo entre a mudança e a percepção dela que se perde margem, caixa e capacidade de investimento.

É justamente nessa etapa que a inteligência artificial deixa de ser uma promessa tecnológica e passa a resolver um problema específico de gestão. O ganho não está em produzir uma previsão sofisticada, mas em retirar da controladoria o trabalho repetitivo que impede novas simulações. Uma estrutura de orçamento construída pela própria área financeira em três meses, sem desenvolvedores, demonstra que esse processo pode deixar de depender de longas filas de tecnologia. Em outro caso, a integração ao ERP reduziu em 20% o ciclo orçamentário e em 50% o tempo de consolidação das informações. Esses números importam porque mostram onde está o desperdício do modelo tradicional. Se o tempo de consolidação é reduzido pela metade, as equipes ganham mais tempo para testar cenários, identificar desvios e discutir decisões, em vez de apenas conferir se as fórmulas das planilhas estão corretas. O orçamento deixa de ser um arquivo produzido pela controladoria e passa a funcionar como uma camada de decisão conectada aos dados que a empresa já produz.

O argumento de que revisões constantes podem comprometer o controle financeiro também perde força quando se separa flexibilidade de falta de governança. Um orçamento que muda sem registro, responsável ou critério é ruim; um orçamento que mantém premissas imutáveis mesmo quando os dados mudam também é. A solução está em estabelecer gatilhos objetivos para revisão, preservar o histórico das alterações e separar claramente o que era premissa original do que passou a ser observado. O próprio planejamento fiscal brasileiro trabalha com essa lógica de acompanhamento. O PLDO 2027 estabelece uma meta de resultado primário de R$ 73,2 bilhões e uma banda de tolerância que vai de R$ 36,6 bilhões a R$ 109,8 bilhões, segundo o Ministério do Planejamento. A existência de uma faixa, em vez de um único número tratado como verdade absoluta, evidencia uma questão fundamental para qualquer planejamento financeiro: metas precisam orientar decisões, não impedir a leitura da realidade.

O cenário de 2027 reforça essa necessidade porque as empresas terão de lidar com variáveis que não estão sob seu controle e que podem afetar diretamente suas projeções. O comércio exterior é um exemplo claro. Em julho, o representante comercial dos Estados Unidos anunciou novas medidas contra o Brasil no âmbito da Seção 301, acrescentando uma camada de incerteza para empresas expostas ao mercado americano e para cadeias de fornecedores que dependem de preços internacionais. Para uma indústria exportadora, isso pode alterar receita líquida; para uma companhia dependente de insumos importados, pode modificar custos; para uma empresa endividada, mudanças nos juros alteram despesas financeiras. São impactos diferentes, mas todos chegam ao mesmo orçamento. Por isso, trabalhar com um único cenário para 2027 é menos uma escolha conservadora do que uma falsa sensação de precisão. O planejamento precisa mostrar o que acontece com caixa, margem, investimentos e despesas quando cada premissa relevante se desloca.

A mudança mais importante, portanto, não é substituir planilhas nem automatizar tarefas por uma questão de eficiência. É mudar a função do orçamento dentro da empresa. Um planejamento que leva quatro ou cinco meses para ficar pronto e depende de mais duas semanas para consolidar informações não consegue acompanhar uma economia em que os indicadores mudam mensalmente e as expectativas são revistas semanalmente. A inteligência artificial reduz o custo de recalcular, comparar e consolidar essas informações, mas a decisão continua sendo financeira e estratégica. Para 2027, a empresa mais preparada não será necessariamente aquela que acertar a inflação, o câmbio ou a taxa de juros com maior precisão. Será aquela capaz de perceber rapidamente que uma premissa deixou de valer, medir o impacto sobre o negócio e alterar sua rota antes que o resultado financeiro obrigue a fazê-lo.

(Fonte: Fábio Aguiar é CGO (Chief Growth Officer) do Mitra, especialista em inovação e implantação de agentes de IA corporativos, com atuação em planejamento orçamentário e integração de sistemas financeiros).

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