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O futuro do trabalho já começou, e exige líderes mais conscientes

em Destaques
segunda-feira, 30 de março de 2026

Marco Poiatti (*)

Nasci na década de 70 e vivi um tempo em que pesquisar significava depender do que estava fisicamente ao meu redor: um livro disponível, a opinião de um professor, uma enciclopédia. Depois veio a internet e ampliou o acesso à informação. Hoje, com a inteligência artificial, basta um bom comando para receber análises estruturadas em segundos.

Não se trata apenas de velocidade. Trata-se de uma mudança profunda na equação do tempo.

Estudo recente da PwC mostrou que 71% dos profissionais brasileiros já utilizaram alguma ferramenta de IA no trabalho, e 80% deles reconhecem ganhos em qualidade e rapidez. Isso significa que a tecnologia já está integrada ao cotidiano corporativo. O futuro do trabalho não é uma previsão para 2030 — ele já está em curso.

A questão central não é se a IA aumenta a produtividade. Ela aumenta.
A pergunta relevante é: o que fazemos com o tempo que passa a sobrar?

Em ambientes como os Centros de Serviços Compartilhados, historicamente orientados por eficiência, padronização e análise de dados, a inteligência artificial acelera atividades repetitivas, automatiza rotinas e organiza informações com precisão impressionante. O que antes exigia semanas de consolidação pode ser resolvido em minutos.

Mas dados organizados não substituem o discernimento.

O líder que antes era valorizado por deter respostas técnicas agora precisa desenvolver outra competência: formular boas perguntas. A qualidade do input define a qualidade do resultado. E, mais importante, a responsabilidade pela decisão continua sendo humana.

Há dois riscos evidentes nesse novo cenário.

O primeiro é confundir velocidade com pressa.

O segundo é acreditar que tecnologia substitui liderança.

Quanto mais automatizamos processos, maior se torna a necessidade de pensamento crítico, leitura de cenário, comunicação clara e capacidade de construir relações de confiança. A inteligência artificial amplia possibilidades, mas não assume responsabilidade. Não constrói cultura. Não engaja pessoas.

Outro movimento irreversível é a mudança na relação das pessoas com o trabalho. Carreiras deixaram de ser necessariamente lineares. Propósito ganhou peso. Ambientes de comando e controle perdem espaço para lideranças que sabem equilibrar empatia e exigência.

Empatia não significa permissividade. Significa compreender o que move cada profissional e ajustar a condução para extrair o melhor desempenho. Em um contexto de alta automação, o diferencial competitivo deixa de estar apenas na eficiência operacional e passa a estar na qualidade das interações humanas.

Para organizações que operam estruturas complexas, multidisciplinares e altamente orientadas a desempenho, o desafio não é apenas investir em tecnologia. É investir simultaneamente no desenvolvimento das pessoas que irão utilizá-la.

Mais IA exige mais maturidade de liderança.
Mais automação exige mais capacidade relacional.
Mais dados exigem mais consciência.

O futuro do trabalho já começou. As organizações que terão melhores resultados serão aquelas que compreenderem que tecnologia e humanização não são forças opostas, são complementares.

E que, no final, o verdadeiro diferencial competitivo continua sendo humano.

(*) Superintendente do CSC do Einstein Hospital Israelita e Diretor de Gente & Sustentabilidade da Associação Brasileira de Serviços Compartilhados (ABSC).