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Juros altos seguem travando o crescimento

em Destaques
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Juros elevados encarecem o crédito travam investimentos e exigem decisões financeiras mais estratégicas das companhias

Mesmo após quase três décadas do Plano Real, o Brasil convive com juros estruturalmente elevados como principal instrumento de controle inflacionário. Dados do IBGE mostram que a inflação acumulada pelo IPCA desde 1994 supera 700%, o que representa perda superior a 85% do poder de compra da moeda. Esse histórico ajuda a explicar a postura mais conservadora da política monetária e a manutenção da Selic em níveis elevados por longos ciclos.

No cenário atual, a cautela do Banco Central do Brasil está ligada à combinação entre inflação ainda pressionada, expectativas parcialmente desancoradas e incertezas fiscais. Com o índice de preços orbitando o teto da banda de tolerância de 4,5%, frente à meta central de 3%, a autoridade monetária opta por preservar credibilidade e previsibilidade, mesmo ao custo de desacelerar a atividade econômica.

Para Beny Fard, engenheiro, especialista em finanças e CEO da fintech DeFin, o país ainda paga o preço de desequilíbrios históricos. “O juro alto virou uma espécie de seguro institucional. Ele protege a moeda, mas penaliza o investimento produtivo e empurra empresas para decisões defensivas”, afirma.

O ambiente internacional reforça essa postura. A política monetária dos Estados Unidos segue exercendo influência direta sobre economias emergentes. A sinalização de juros elevados por mais tempo pelo Federal Reserve fortalece o dólar, pressiona o câmbio e encarece importações, afetando expectativas inflacionárias domésticas.

Segundo o especialista, esse cenário reduz o espaço de manobra do Brasil. “Quando o juro americano permanece alto, cortes precipitados aqui tendem a gerar fuga de capital e volatilidade cambial. O Banco Central acaba sendo forçado a agir de forma defensiva”, diz.

Esse contexto se reflete na curva de juros doméstica, especialmente nos vencimentos mais longos, que incorporam prêmios elevados de risco. Os efeitos chegam rapidamente à economia real. Crédito mais caro desestimula consumo, adia investimentos e eleva o custo médio de capital das empresas. Em muitos casos, torna-se financeiramente mais atraente aplicar recursos em títulos públicos do que investir em expansão, inovação ou aumento de capacidade produtiva. “A Selic alta distorce a lógica empresarial. O retorno financeiro sem risco passa a competir diretamente com o investimento no próprio negócio”, avalia Fard.

No campo fiscal, o impacto é ainda mais sensível. Com a dívida bruta do governo geral se aproximando de R$ 9 trilhões, grande parte indexada à Selic, cada ponto percentual adicional eleva de forma significativa o custo de rolagem. Isso reduz o espaço para políticas públicas e amplia a sensibilidade do mercado a qualquer sinal de deterioração fiscal. Embora política monetária e fiscal sejam formalmente independentes, a percepção de risco influencia diretamente o nível de juros exigido pelos investidores.

Diante desse cenário prolongado de juros elevados, empresas precisam ir além do ajuste tático de curto prazo e adotar uma postura mais estruturada de gestão financeira. “Juros altos não são apenas um problema macroeconômico. Eles exigem maturidade financeira, leitura de risco e decisões mais criteriosas para atravessar ciclos longos de aperto monetário”, afirma o especialista.

O especialista aponta cinco pontos de atenção para empresas em um ambiente de Selic elevada
Antes de adotar medidas pontuais, a recomendação é que as companhias façam uma revisão ampla da estrutura financeira, buscando previsibilidade e resiliência no médio e longo prazo.

  1. Reavaliar o custo real do capital – Projetos precisam ser recalculados com taxas de desconto mais altas e premissas mais conservadoras. “Muitos investimentos que pareciam viáveis em um ambiente de juros baixos passam a destruir valor quando o custo do dinheiro sobe”, alerta.
  2. Renegociar dívidas e alongar prazos – Reduzir a exposição a dívidas pós-fixadas e buscar alongamento de passivos ajuda a diminuir a volatilidade financeira. Segundo ele, entender a indexação da dívida é tão relevante quanto o volume contratado.
  3. Separar capital operacional de capital estratégico – Misturar caixa de giro com recursos destinados a investimento aumenta o risco financeiro. “Empresas que não fazem essa separação tendem a perder eficiência e margem justamente quando o ambiente fica mais restritivo”, afirma.
  4. Contratar assessoria especializada – A escolha de empresas com experiência em estruturação financeira e crédito é decisiva. O alerta é para soluções genéricas. “Cada negócio tem uma dinâmica própria de risco, fluxo de caixa e financiamento. Não existe resposta única”, diz.
  5. Avaliar alternativas ao crédito bancário tradicional – Mercado de capitais, estruturas privadas de crédito e soluções híbridas podem oferecer condições mais adequadas. “O erro é achar que o banco é sempre a única porta. Hoje existem instrumentos mais eficientes para empresas bem estruturadas”, conclui.

A redução sustentável da taxa de juros no Brasil depende de fatores que vão além do ciclo econômico imediato, como inflação convergindo de forma consistente para a meta, previsibilidade fiscal, estabilidade institucional e segurança jurídica.

Até que esse ambiente se consolide, a Selic tende a cair de forma gradual e condicionada. Sem enfrentar as causas estruturais, o país corre o risco de perpetuar o ciclo histórico de juros altos, baixo crescimento e perda de competitividade, um cenário que exige das empresas mais estratégia e menos improviso.