
Vinícius Arakaki (*)
Há uma pergunta que começa a me incomodar cada vez mais quando observo o uso da inteligência artificial nas empresas: se a IA resolve boa parte dos problemas, quem está desenvolvendo a experiência necessária para resolver os próximos?
A provocação não é um argumento contra a tecnologia, pelo contrário, mas poucas ferramentas tiveram um impacto tão imediato na produtividade quanto a IA. Ela acelera análises, organiza informações, produz textos, cria apresentações, sugere códigos, resume reuniões e reduz drasticamente o tempo gasto em atividades operacionais.
Existe uma diferença importante entre entregar uma tarefa rapidamente e construir competência para executá-la de forma autônoma no futuro. A primeira gera resultado imediato, já a segunda forma repertório, capacidade crítica e maturidade profissional.
A experiência sempre foi construída de maneira quase inevitável, já que o profissional precisava pesquisar, errar, testar hipóteses, conversar com colegas mais experientes, revisar o próprio trabalho e aprender com cada tentativa. Era um processo lento, muitas vezes frustrante, mas extremamente eficiente para formar julgamento.
Agora, boa parte desse percurso pode ser encurtada por um simples prompt e isso aumenta a eficiência, mas também elimina parte do caminho que produzia aprendizado.
O custo invisível da velocidade
Pense em um profissional em início de carreira que precisa elaborar um plano de comunicação, estruturar uma apresentação financeira ou desenvolver um parecer técnico. Antes, ele passava horas pesquisando referências, organizando ideias, fazendo conexões e refinando argumentos. Hoje, em poucos minutos, recebe uma versão bastante convincente. O trabalho foi entregue, mas a experiência foi construída?
Essa talvez seja a principal diferença entre conhecimento transferido e conhecimento adquirido, em que receber uma boa resposta não significa compreender profundamente por que aquela resposta funciona.
Um exemplo é o GPS, ele nos leva ao destino com enorme eficiência, mas muitas pessoas perderam a capacidade de memorizar trajetos ou desenvolver senso de orientação. O recurso resolveu o problema imediato, mas reduziu a necessidade de construir uma habilidade.
Com a inteligência artificial, algo parecido pode acontecer em diversas profissões e isso se torna ainda mais relevante quando pensamos nas novas gerações entrando no mercado. Os profissionais seniores acumularam anos de experiências anteriores à IA. Eles já desenvolveram repertório suficiente para avaliar quando uma resposta faz sentido, quando está incompleta ou quando simplesmente está errada. Quem inicia a carreira agora talvez não tenha essa mesma referência.
Se todas as etapas mais difíceis forem terceirizadas desde o primeiro dia, como esse profissional desenvolverá pensamento crítico? Como aprenderá a fazer boas perguntas? Como adquirirá discernimento para identificar uma recomendação inadequada?
Aprender continua sendo um processo
Experiência não nasce da resposta pronta, ela nasce do processo e esse processo envolve dúvida, tentativa, erro, comparação, reflexão e, principalmente, tempo.
Isso não significa que devemos impedir o uso da IA em atividades de aprendizagem, seria um enorme desperdício abrir mão de uma ferramenta tão poderosa. O desafio é desenhar experiências que utilizem a inteligência artificial como apoio e não como substituta do esforço cognitivo.
Talvez a pergunta mais importante deixe de ser “como usar IA para fazer mais rápido?” e passe a ser “como usar IA sem interromper a formação das competências que continuarão sendo exclusivamente humanas?”.
A experiência continua sendo construída exatamente da mesma forma que sempre foi, enfrentando problemas, formulando hipóteses, cometendo erros, aprendendo com eles e desenvolvendo um tipo de julgamento que nenhuma inteligência artificial consegue entregar pronto.
A IA pode fornecer respostas excelentes, mas ela não pode viver o processo de aprendizagem por nós e esse é o maior risco escondido na revolução tecnológica que estamos vivendo: não perdermos espaço para as máquinas, mas deixarmos de construir aquilo que sempre diferenciou os melhores profissionais, a experiência que nasce do caminho e não apenas da chegada.
(*) Cofundador e diretor da Edusense.

