
Paulo C. Mauro (*)
O franchising brasileiro é reconhecido como uma força relevante no cenário internacional. Com mais de 3.500 marcas registradas e aproximadamente 200 mil unidades franqueadas em operação, o Brasil ocupa hoje a terceira posição no ranking global do setor, atrás apenas de Estados Unidos e China, segundo dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF). Trata-se de um avanço expressivo, principalmente considerando que o modelo só começou a se desenvolver com consistência no país nas últimas quatro décadas. No entanto, apesar da relevância interna, o país ainda não se destaca como formador de marcas globais, o que evidencia uma desconexão entre o desempenho doméstico e a projeção internacional.
Apenas 163 redes brasileiras estão presentes no exterior, número que representa menos de 5% do total de franqueadoras nacionais, conforme levantamento da ABF publicado em 2023. Mesmo com um mercado interno forte e consolidado, a presença internacional das marcas brasileiras ainda é restrita e pouco estratégica. Esse cenário não reflete falta de competência operacional, mas sim uma visão limitada em relação às possibilidades de expansão global. Muitos empresários seguem priorizando o crescimento dentro do país, o que, embora compreensível pela dimensão territorial e diversidade econômica do Brasil, acaba por restringir o potencial de internacionalização.
Essa priorização exclusiva do mercado doméstico muitas vezes leva à acomodação com os bons resultados obtidos localmente. A percepção de que atuar em outros países é algo distante, arriscado ou excessivamente complexo impede que as redes desenvolvam as competências necessárias para se posicionar globalmente. Não se trata apenas de abrir unidades fora do Brasil, mas de compreender outros ambientes regulatórios, adaptar os modelos de negócio às culturas de consumo locais e operar em mercados com dinâmicas distintas. A preparação insuficiente em temas como branding internacional, negociação intercultural e domínio de idiomas ainda representa um entrave para grande parte das marcas brasileiras.
Além das barreiras estratégicas e operacionais, existe também um vácuo institucional importante. Enquanto países como Estados Unidos, França e Coreia do Sul desenvolvem políticas robustas para apoiar a expansão internacional de suas franquias, o Brasil avança lentamente. O projeto Franchising Brasil, parceria entre ABF e ApexBrasil, embora existente há mais de 20 anos, atende um número reduzido de empresas e carece de maior profundidade estratégica. A atuação das representações diplomáticas brasileiras no exterior, por sua vez, permanece limitada, quando poderia desempenhar papel ativo na promoção de marcas nacionais em feiras e negociações comerciais no setor.
É necessário lembrar que internacionalizar não significa apenas vender em outro idioma ou operar em moeda estrangeira. Liderança global exige também contribuição efetiva para o desenvolvimento do setor em nível mundial, com envolvimento em temas como sustentabilidade, transformação digital, inclusão e regulação de novas tecnologias. A baixa presença de marcas brasileiras em fóruns e redes internacionais mostra que ainda há pouca conexão com as grandes discussões que estão moldando o futuro do setor.
O franchising brasileiro já demonstrou capacidade de crescimento, adaptação e inovação em um ambiente desafiador como o mercado nacional. O próximo passo é transformar essa maturidade interna em influência global. Para isso, será preciso investir em formação internacional, ampliar redes de relacionamento e, sobretudo, adotar uma mentalidade voltada para o mundo. O futuro do setor no Brasil não depende apenas de abrir novas unidades, mas de formar líderes que consigam dialogar com os principais mercados e contribuir com ideias que ajudem a moldar o setor de franquias em escala global.
(*) CEO da Global Franchise.


