
A tecnologia deve funcionar como treino de julgamento, checagem e tomada de decisão, não como um atalho que substitui raciocínio, repertório e autonomia profissional, segundo Celso Camilo, Professor de IA da UFG
A inteligência artificial entrou na rotina de empresas, escolas e serviços de saúde em velocidade inédita, mas uma nova preocupação começa a ganhar peso entre pesquisadores: o deskilling, termo usado para descrever a perda gradual de habilidades humanas quando profissionais passam a depender excessivamente da tecnologia. Um estudo analisou 1.443 colonoscopias sem auxílio de IA, realizadas por 19 endoscopistas experientes em quatro centros na Polônia, e acendeu um alerta sobre o risco de deskilling após a exposição rotineira à tecnologia. A taxa de detecção de adenomas passou de 28,4% para 22,4%, uma queda absoluta de 6 pontos percentuais e redução relativa de 20%, indicando que o uso frequente da ferramenta pode estar associado à perda de desempenho quando os profissionais voltam a atuar sem o apoio da IA. No Brasil, 50 milhões de pessoas com 10 anos ou mais já usam IA generativa, o equivalente a 32% dos usuários de internet. Entre os estudantes, 86% dos que usam IA recorrem à ferramenta para pesquisas ou trabalhos acadêmicos. Nas empresas brasileiras, a adoção de IA passou de 13% em 2024 para 17% em 2025, chegando a 50% entre as grandes companhias. Globalmente, estima-se que 22% dos empregos serão transformados até 2030, com 170 milhões de novas funções criadas, 92 milhões deslocadas e quase 40% das habilidades exigidas no trabalho passando por mudança. A questão, agora, não é apenas quantas tarefas a IA consegue executar, mas o que acontece com a capacidade humana quando a ferramenta passa a pensar, escrever, diagnosticar, resumir e decidir antes das pessoas.
O estudo não deve ser lido como uma condenação da inteligência artificial, mas como um sinal de maturidade no debate. A tecnologia pode ampliar produtividade, reduzir erros e acelerar análises, desde que seja usada com método. O problema começa quando ela deixa de ser instrumento de apoio e passa a ocupar o lugar do raciocínio. “A inteligência artificial não tira a habilidade de ninguém por existir. O risco aparece quando o profissional terceiriza por completo para a máquina a etapa mais importante do trabalho, que é pensar, comparar, duvidar e decidir. Quando a pessoa apenas aceita a resposta da IA, ela ganha velocidade no curto prazo, mas pode perder capacidade crítica no longo prazo”, afirma Celso Camilo, Professor de IA da Universidade Federal de Goiás. “Esse efeito não está restrito à medicina. Advogados que deixam de construir teses, analistas que não conferem dados, comunicadores que não desenvolvem argumentação, programadores que não entendem o código gerado e gestores que passam a delegar decisões sem leitura crítica podem enfrentar o mesmo fenômeno em diferentes graus”, complementa Celso.
A solução passa por uma mudança de uso. Em vez de tratar a IA como substituta do conhecimento humano, empresas e profissionais precisam incorporá-la como ambiente de treino, validação e ampliação de repertório. Isso significa criar etapas em que a pessoa formule hipóteses antes de consultar a ferramenta, compare respostas, peça explicações, identifique falhas, teste cenários e mantenha momentos de execução sem auxílio automatizado. “A IA precisa entrar como copiloto, não como piloto automático. A melhor prática é fazer com que o profissional use a ferramenta para desafiar o próprio raciocínio, e não para escapar dele. Em uma empresa, isso pode significar protocolos simples: primeiro o colaborador apresenta sua análise, depois consulta a IA (observando a bajulação), e por fim justifica o que aceitou, o que descartou e por quê”, explica. Para o professor, esse tipo de governança é essencial porque a habilidade profissional nasce justamente do atrito com problemas difíceis. Quando a tecnologia remove todo o atrito, ela também pode remover parte do aprendizado.
Esse debate tende a se tornar ainda mais relevante à medida que a IA avança de tarefas operacionais mais simples para atividades cognitivas mais complexas. Com isso, menos trabalhadores precisará desenvolver competências avançadas de programação ou modelagem de IA, mas uma parcela muito maior terá de aprender a usar, interpretar e questionar dados, além de preservar habilidades humanas como criatividade, resolução de problemas, comunicação e julgamento. Nas empresas, isso muda a agenda de treinamento. “O desafio deixa de ser apenas ensinar colaboradores a usar prompts e passa a incluir cultura de checagem, raciocínio crítico, domínio do processo e capacidade de explicar decisões. “A empresa que usar IA apenas para cortar tempo pode até ganhar eficiência imediata, mas corre o risco de formar equipes dependentes. A empresa que usar IA para treinar melhor suas pessoas vai ganhar produtividade e inteligência organizacional ao mesmo tempo”, afirma Celso Camilo.
No longo prazo, a inteligência artificial pode melhorar o futuro das empresas, das tarefas e das pessoas justamente porque desloca o trabalho humano para funções de maior valor. Ela pode assumir repetições, organizar informações, acelerar diagnósticos, sugerir caminhos e reduzir o tempo gasto em atividades mecânicas. Mas o ganho mais importante virá das organizações que entenderem que produtividade não é apertar menos botões, e sim decidir melhor. A IA pode liberar profissionais para investigar, criar, revisar, orientar, negociar e resolver problemas complexos, desde que o conhecimento humano continue sendo exercitado. O futuro mais promissor não será aquele em que a máquina substitui a competência, mas aquele em que a tecnologia ajuda pessoas a trabalharem com mais clareza, mais precisão e mais responsabilidade.



