
Planejamento fiscal e análise regulatória orientam decisões estratégicas para a entrada ou expansão de empresas brasileiras no ambiente econômico americano
O fluxo de investimento direto estrangeiro nos Estados Unidos voltou a crescer e alcançou US$ 5,39 trilhões em 2023, chegando a US$ 5,71 trilhões em 2024, segundo o Bureau of Economic Analysis (BEA). Embora o Brasil não figure entre as maiores origens desse capital, sua presença tem ganhado relevância.
Levantamento da Amcham Brasil, baseado em dados oficiais norte-americanos, mostra que o país ocupou a 23ª posição entre os investidores estrangeiros em 2022, após ter estado na 13ª posição em 2015. A distribuição setorial indica que empresas brasileiras têm ampliado aportes especialmente em alimentos e bebidas, plásticos, bens de consumo e software e tecnologia, segundo dados compilados pela Agência Brasil em 2025.
Para 2026, especialistas projetam que a ampliação ou entrada de brasileiros no mercado norte-americano deve se concentrar em setores regulados e operações de serviços que exigem estruturação fiscal cuidadosa.
A avaliação é de Fernanda Spanner, CEO da Spanner Consulting Group e especialista em planejamento tributário e estruturação de empresas nos Estados Unidos, que aponta o momento como decisivo para ajustes estratégicos. “O ambiente americano é mais previsível, mas não menos técnico. Cada estado impõe regras distintas de impostos, seguros e licenças, e isso altera completamente o custo real da operação”, afirmou a executiva, ao reforçar que as escolhas feitas antes da virada do ano ajudam a definir o nível de risco das operações internacionais .
Onde deve se concentrar o interesse dos brasileiros em 2026
- Imobiliário e construção – A National Association of Realtors registrou US$ 56 bilhões em compras de imóveis residenciais por estrangeiros entre abril de 2024 e março de 2025, alta de 33 por cento em relação ao período anterior. O Brasil figura entre as principais nacionalidades latino-americanas nesse mercado. A expectativa de estabilização do crédito e a continuidade da demanda doméstica sustentam a projeção de que o setor seguirá no radar de investidores que buscam renda de locação, remodelagem ou operações híbridas com aluguel de curto prazo.
- Software, TI e serviços digitais – Apesar de não liderar o valor total investido, o setor atrai brasileiros interessados na combinação entre ambiente regulatório claro e crescimento robusto de empresas de tecnologia nos Estados Unidos. Relatórios recentes do BEA mostram expansão do investimento estrangeiro em software e serviços corporativos, reforçando a tendência de internacionalização de empresas digitais brasileiras que buscam contratos B2B.
- Alimentos, bebidas e bens de consumo – Setores que concentram o maior volume de investimento brasileiro nos Estados Unidos devem continuar vantajosos em 2026, principalmente para empresas que pretendem acessar o varejo americano. A robustez da demanda e os acordos com redes de distribuição favorecem operações industriais e comerciais já consolidadas no Brasil.
- Logística, armazenamento e importação – O avanço do e-commerce e a reorganização das cadeias de abastecimento ampliam o interesse por centros de distribuição, pequenos armazéns e operações porta a porta em estados como Flórida, Geórgia e Nova Jersey. A alta competição por prazos de entrega e a busca por bases fiscais favoráveis impulsionam investidores com experiência em comércio exterior.
- Serviços de saúde e bem-estar regulados – Clínicas especializadas, laboratórios e serviços de suporte têm avançado como alternativas de médio prazo para empresários brasileiros. O envelhecimento da população e a falta de prestadores em determinadas regiões geram oportunidades em nichos de alta demanda e margens superiores, embora as licenças e normas estaduais tornem o setor um dos mais técnicos.
A importância do planejamento fiscal no cenário 2026 – Spanner ressalta que o período exige decisões fundamentadas em simulações tributárias, análise de riscos e mapeamento de custos regulatórios. Para ela, a ideia de que operar nos Estados Unidos é necessariamente mais simples não corresponde à prática. “No Brasil, discute-se muito a complexidade tributária. Mas, nos Estados Unidos, uma única escolha societária errada ou a contratação inadequada de seguros pode multiplicar o custo anual de uma empresa. O planejamento é o que determina a viabilidade de longo prazo”, explicou a especialista .
Entre os pontos que consultorias especializadas têm priorizado na preparação para 2026 estão:
Comparação das cargas tributárias estaduais, como Corporate Tax, Sales Tax e obrigações complementares.
Avaliação dos custos de seguros, que variam fortemente entre setores.
Definição da estrutura societária mais eficiente para cada operação, como LLC, C Corp ou holding.
Análise de riscos cambiais e impacto no fluxo de caixa.
Estudos de licenciamento setorial, especialmente para saúde, alimentos e logística.
Um ano de reavaliação de rotas para quem pretende cruzar fronteiras
Com a aproximação do fim do ano e a pressão por ajustes nos planos de expansão, o debate sobre oportunidades setoriais, riscos e exigências fiscais ganha peso entre empreendedores brasileiros. A construção de operações internacionais tende a crescer, mas o ritmo e a sustentabilidade dos investimentos dependerão da capacidade de alinhar estratégia, estrutura e ambiente regulatório.
Para a especialista, o ponto central não é apenas abrir uma empresa, mas garantir coerência entre propósito, modelo de negócio e realidade tributária. “A expansão só se sustenta quando há clareza sobre custos e riscos. Esse será o diferencial competitivo de quem pretende investir nos Estados Unidos em 2026”, concluiu.



