
Mike Magee (*)
O Brasil está em um momento decisivo. Quase um em cada quatro jovens brasileiros entre 18 e 24 anos — cerca de 24% — não está trabalhando nem estudando atualmente. Esse número está bem acima da média da OCDE, de 14%, e representa o potencial subaproveitado de milhões de jovens. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que uma pessoa com diploma universitário no país ganha, em média, 148% a mais do que alguém que concluiu apenas o ensino médio, quase três vezes o diferencial observado em outras economias desenvolvidas. Em poucos lugares do mundo a educação de qualidade faz tanta diferença.
Diante de desigualdades persistentes e rápidas transformações tecnológicas, é urgente repensar modelos tradicionais de educação e desenvolvimento. É aí que o empreendedorismo social aliado à tecnologia educacional desponta como um caminho promissor para mudanças estruturais. Implementar essa transformação exige uma mudança na forma como preparamos os jovens para o mercado de trabalho. Eles devem ser capacitados para compreender problemas complexos e agir com soluções inovadoras.
Para que o empreendedorismo social cumpra seu propósito de gerar impacto social positivo, o ambiente educacional deve estimular o pensamento crítico, a criatividade e a colaboração. É nesse ponto que a tecnologia educacional desempenha um papel essencial. Plataformas digitais, metodologias ativas e ambientes interativos permitem que os estudantes passem de receptores passivos de conteúdo para condutores de sua própria jornada educacional. Ao se engajarem em um aprendizado autônomo, desenvolvem habilidades técnicas e socioemocionais, além de um senso mais forte de responsabilidade social e engajamento com desafios globais.
São Paulo é um exemplo de como a tecnologia educacional já está ajudando a moldar esse futuro. Mais de 40% das ‘edtechs’ do Brasil estão concentradas na cidade, que se tornou o principal polo de inovação em aprendizagem da América Latina. Em nível federal, o governo brasileiro já investiu mais de US$ 1,2 bilhão em infraestrutura de educação digital. Apesar disso, infraestrutura por si só não é suficiente.
A última década mostrou que boa parte da educação online carece de qualidade. O desafio é avançar para modelos inovadores e eficazes, conectados a problemas reais e baseados em aprendizagem prática e por projetos. A tecnologia educacional pode e deve fazer parte do processo de ensino, ainda mais em um mundo cada vez mais interconectado. Afinal, chegamos ao momento da história em que é impossível compreender a própria comunidade sem compreender o contexto global. Devemos avançar ainda mais, integrando a Inteligência Artificial (IA) a esse processo e utilizando-a como uma ferramenta para tornar a experiência mais interativa e imersiva.
O aprendizado precisa ser desafiador para que o conhecimento seja efetivamente assimilado. Estamos entrando em uma nova era para os educadores. Quando são devidamente apoiados, eles podem utilizar a IA para ampliar sua capacidade de promover a aprendizagem dos estudantes. Isso exigirá uma redefinição de seu papel, que passará a ter mais tempo para oferecer mentoria, orientação e apoio ao aprendizado baseado em projetos, à medida que a transmissão de conteúdo por meio de aulas expositivas perde protagonismo. Já os alunos terão mais atenção individualizada e espaço para desenvolver o pensamento complexo e a consciência cultural que o mundo contemporâneo exige.
Na Minerva University, esse modelo é testado há mais de uma década. Uma abordagem inovadora que reúne estudantes de mais de 100 países e oferece um exemplo de transformação educacional, combinando aprendizado virtual com experiências práticas no mundo real. Em Tóquio, no Japão, 150 de nossos alunos realizaram uma viagem de quatro dias à cidade de Himeji para estudar a resposta a desastres após um grande terremoto. Eles também refletiram sobre como esses fatores se manifestariam em suas próprias cidades e, a partir disso, aplicaram esse conhecimento na prática para mitigar os impactos de desastres naturais em suas comunidades.Na Índia, uma parceria com a ONG Community Pure Water permitiu que estudantes da Minerva desenvolvessem uma iniciativa inovadora para a construção de sistemas de filtragem de água potável, atualmente implementados em 300 comunidades no país.
O Brasil reúne ecossistema, investimentos e urgente necessidade. São Paulo é uma cidade que já é o centro da economia de inovação da América Latina, que abriga universidades de excelência e uma geração de pensadores empreendedores, é exatamente o lugar onde esse modelo pode se consolidar e dali se expandir.
Quando estudantes percebem que o aprendizado tem impacto real, o engajamento aumenta e a educação cumpre seu papel transformador.
Para concretizar essa visão, é fundamental investir na formação de professores e na criação de estruturas que conectem universidades, empresas e setor público, de forma que o modelo seja escalável. A educação pode ser reinventada para formar indivíduos preparados para o futuro e comprometidos em transformá-lo para melhor. O Brasil não precisa esperar por esse futuro. Pode construí-lo agora.
(*) Ph.D., empreendedor em educação e presidente da Minerva University, onde lidera iniciativas pioneiras em inteligência artificial, sustentabilidade e aprendizagem experiencial.
