Com empregos tradicionais em extinção, a formação técnica avança

André Dratovsky (*)

O mundo profissional, os empregos e as expectativas em relação aos trabalhadores do futuro jamais serão como hoje. Essas constatações aceitas de forma universal ficaram particularmente evidentes a partir da publicação feita pelo Fórum Econômico Mundial (FEM), em 2016, com o estudo “The Future of Jobs: Employment, Skills and Workforce Strategy for the Fourth Industrial Revolution”.

Preconizada e batizada pelo economista alemão, Klaus Shwab, diretor e fundador do FEM em “A 4ª Revolução Industrial”, a rápida evolução das sociedades e mercados transformarão a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. A inovação tecnológica seguida por modelos de negócios inéditos, ditarão os desafios das disparidades entre os requisitos necessários e as competências disponíveis nos profissionais atuais.

Três características tornam os avanços atuais do mercado de trabalho únicos e de interesse universal: o alcance, velocidade e a profundidade do impacto. Enquanto os mercados evoluem de forma acelerada, e o prêmio oferecido em troca de qualificação específica é cada vez maior. As universidades tradicionais começam a perceber, gradativamente, que as empresas estão procurando por talentos com habilidades técnicas que, nem sequer, ainda existem professores para ensinar e grade curricular pronta.

O movimento começa a ser o inverso: o profissional vai em busca de cursos livres, técnicos e profissionalizantes que possam gerar um futuro próspero na carreira, uma crescente em vagas e que remunere bem. Além da especialização, que possam ser incluídos no currículo e despertem atenção dos recrutadores. Os jovens passam a procurar por uma educação baseada em competências específicas, orientada para o mercado empregador.

Um detalhe importante: quando focados nos segmentos mais pulsantes, possuem o poder de escolha para selecionar a empresa que melhor responde e se enquadre ao seu perfil, que tenham os mesmos valores, visão de futuro, princípios, propósitos, além de buscarem corporações com um DNA digital forte e uma cultura voltada para gente.

Diante desta nova mentalidade de mercado, friso a lei 13.415, da educação, que permite uma flexibilização curricular que acompanhe o momento atual. Alunos do novo ensino médio vão poder escolher um itinerário de formação junto às disciplinas gerais previstas pela Base Nacional Comum Curricular. De acordo com a OCDE, apenas 11% dos jovens finalizam a educação básica na modalidade técnica. Em países cuja educação é conhecida pela excelência e qualidade, a exemplo da Finlândia, esse índice chega a 72% da população.

. O futuro promissor – Em uma realidade em que diplomas universitários já deixaram de ser o único passaporte garantidor de acesso aos bons empregos, sucesso profissional e ascensão social, o desafio é como reciclar a população adulta e preparar os jovens para as novas tecnologias e demandas em seus diversos mercados de atuação. Tendências tecnológicas no ensino são apontadas como irreversíveis e um caminho sem volta e posso citar algumas como Immersive Learning e Lifelong Learning.

Recrutamentos estão se baseando, cada vez mais, nas micro-credenciais, ou seja, oportunidades de aprendizagem modulares, mais flexíveis e em competências práticas, de tal sorte que inúmeras plataformas de avaliações profissionais, nesse sentido, têm surgido e ganhado relevância no mundo do RH, transformando de forma irreversível, o modo como se seleciona e avalia profissionais.

Diante da crescente presença de tecnologias envolvendo Ciência de Dados, RA (Realidade aumentada) RV (Realidade virtual) IA (Inteligência artificial) e UX/UI (Design de experiências) nos mais distintos mercados, o Fórum Econômico Mundial estima que serão criadas até 1,7 milhões de novas oportunidades ainda em 2021 e, até 2022, outras 6,1 milhões. O relatório “The Future of Jobs” revela que 97 milhões de empregos serão criados até 2025 relacionados às transformações tecnológicas.

Testemunhamos uma corrida acirrada em que as empresas buscam aproveitar as lacunas de oportunidades, enquanto as pessoas almejam superar os abismos do conhecimento moderno por meio da capacitação contínua, como forma de preservar a produtividade e participar deste novo universo em ascensão. Segundo a OCDE, nos próximos 10 a 20 anos, 65% das atividades performadas por humanos serão parciais ou totalmente automatizadas, sendo que 50% já poderiam ser com as tecnologias de que dispomos hoje.

O relatório “Future of Organizations and Work” estima que entre 3% e 14% (75 a 275 milhões de empregos) serão completamente extintos. Estudos diversos apontam que os futuros empregos serão impulsionados por fatores como:

• Aumento da renda média e do consumo (especialmente em economias emergentes)
• Envelhecimento populacional, altamente demandante de serviços de saúde
• Investimentos em infraestrutura e imóveis (destaque para habitação)
• Desenvolvimento e implementação de novas tecnologias
• Investimentos em energias renováveis e sustentabilidade
• Criação de mercados em que os trabalhos não eram remunerados ou reconhecidos.

Especialmente para os jovens e público ativo de meia idade, o maior perigo reside em não se preparar adequadamente para as demandas futuras, assim como em não se manter atualizado e em constante processo de aprendizado relativo a habilidades, muito além das ensinadas nos programas universitários e técnicos tradicionais.

O sucesso do ingresso de jovens no mercado de trabalho está diretamente associado às competências adquiridas tanto no âmbito acadêmico, quanto no aprendizado informal, seja técnico ou de habilidades humanas. Não importa o ângulo por onde se estude, as evidências são claras: atividades repetitivas e automatizáveis serão progressivamente extintas.

Na contramão, habilidades interpessoais, empreendedoras, de inteligência inovadora e todas as demais essencialmente humanas serão cada vez mais valorizadas. Portanto, preparar-se e acompanhar o ritmo das atualizações em relação às competências modernas, serão os maiores desafios de todas as gerações.

(*) – É CEO e fundador da Elleve, fintech de financiamento estudantil. É formado em Administração de Empresas pela ESPM.

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