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Cinco erros comuns que fazem decisões empresariais falharem

em Destaques
quarta-feira, 04 de fevereiro de 2026

Especialista em responsabilidade corporativa, Taiana Jung analisa por que ignorar pessoas e territórios acaba gerando conflitos, retrabalho e prejuízos para as empresas

Mesmo com dados disponíveis, planejamento estruturado e equipes experientes, muitas organizações seguem tomando decisões que precisam ser revistas pouco tempo depois. Para Taiana Jung, fundadora da Logos Consultoria, o problema raramente está na falta de informação. O que costuma falhar é a forma como se decide quando a pressão aumenta.

“Quando o contexto aperta, a decisão vem mais rápido. A reunião termina, o plano é aprovado, o cronograma avança. Pouco tempo depois, começam a aparecer sinais de que algo não fechou, como desgaste interno, ruídos no território, resistências e ajustes sucessivos. Não é exceção. É um padrão”, afirma.

Ao acompanhar processos decisórios em organizações de diferentes setores, Taiana observa armadilhas que se repetem sempre que a complexidade aumenta. Elas não surgem por falta de preparo técnico, mas como respostas previsíveis à urgência por avançar. E tendem a se agravar quando os impactos sociais da decisão ficam fora do centro da análise.

Simplificar demais para conseguir decidir – A pressão por avançar leva a reduzir o problema até um tamanho “administrável”. No campo social, isso costuma significar tirar da mesa quem será diretamente afetado pela decisão. Discute-se o impacto, mas sem a presença de trabalhadores, comunidades ou grupos que vivem a realidade em questão.

O território vira um conceito genérico. Desconsideram-se rotinas, formas de organização e dinâmicas próprias. A decisão flui internamente, mas quem foi excluído reaparece depois como conflito, retrabalho ou desgaste relacional.

Decidir olhando apenas para os números – Indicadores são importantes, mas não dão conta sozinhos da realidade. Dados podem estar desatualizados, mal formulados ou capturar pouco do que acontece no dia a dia. Existe a ideia de que, se um grupo foi ouvido, todos estão representados. Não estão.

Registros formais podem ser tecnicamente corretos, mas invisibilizar desigualdades e vulnerabilidades. A decisão fecha no papel, mas perde sustentação quando precisa se materializar.

Confundir alinhamento formal com alinhamento real – No PowerPoint, a estratégia parece clara. Nos documentos, a linguagem está correta. Mas, na prática, as condições de execução raramente são tão organizadas quanto o texto sugere.

O território é dinâmico, instável, atravessado por fatores que fogem ao controle da empresa. Quando isso não é considerado, surgem improvisos, baixa adesão e desgaste nas relações, além de riscos associados à prevenção de violações de direitos.

Ouvir menos do que o necessário – Em momentos críticos, escutar passa a ser visto como atraso. Um erro comum é reduzir o território a um único interlocutor, como se uma liderança pudesse falar por todos os grupos e experiências envolvidas.

Outro problema é a escuta pontual, feita apenas para cumprir etapas formais, sem construção de relação ou confiança. Ouvir o necessário não é ouvir todo mundo, mas identificar quem realmente importa para aquele risco específico, como trabalhadores, mulheres, juventudes, pequenos comerciantes, serviços públicos. Cada decisão pede um recorte diferente.

Adiar o risco para seguir adiante – Para viabilizar a decisão, riscos são empurrados para o futuro ou deslocados para áreas menos visíveis da organização. No campo social, isso pode significar ignorar sinais de violação de direitos ou postergar medidas de mitigação e reparação.

O problema não desaparece. Ele se acumula. As consequências aparecem depois como tensão crescente, paralisações, denúncias, judicialização e impacto direto sobre imagem, reputação e governança. “Essas armadilhas não são falhas individuais. São respostas humanas à pressão. Criam uma sensação de controle no curto prazo, mas cobram um preço alto depois”, diz.

Para a especialista, decidir em ambientes complexos exige reconhecer limites e assumir consequências. “Não se trata de acertar sempre, mas de entender os efeitos de cada escolha, inclusive sobre pessoas e territórios, e decidir conscientemente com quais deles a organização está disposta a lidar”, afirma.