Tânia Gofredo (*)
A volatilidade econômica global transformou definitivamente o papel do procurement, que é o processo estratégico de aquisição de bens, serviços ou matérias dentro das empresas. Durante muitos anos, a área de compras foi associada quase exclusivamente à negociação com fornecedores e redução pontual de custos. Hoje, no entanto, passou a ocupar uma posição estratégica: proteger margens em um ambiente marcado por oscilações cambiais, pressão sobre commodities, juros elevados e cadeias globais cada vez mais instáveis.
A sensação de imprevisibilidade deixou de ser conjuntural para se tornar estrutural. O dólar reage em tempo real às incertezas globais e às decisões do Federal Reserve. O petróleo volta a subir diante das tensões no Oriente Médio. Já a desaceleração da economia chinesa continua impactando sobre os preços de metais, commodities industriais e cadeias globais de produção. O impacto é sentido rapidamente nas empresas, especialmente em setores dependentes de importação, energia e logística.
Os números ajudam a dimensionar esse cenário. acompanhados pela GEP Brasil, consultoria e outsourcing voltadas para Procurement e Supply Chain, e calculados pelo FMI mostram elevação da média da inflação global de commodities entre 2021 e 2026 de 5,7%, comparativamente a uma média de 3,2% entre 2015 e 2020, impulsionada por diversos fatores desde a pandemia até os conflitos geopolíticos atuais impactando em gargalos logísticos envolvendo rotas estratégicas do comércio internacional. Ao mesmo tempo, a Comissão Europeia revisou sua expectativa de crescimento da zona do euro para baixo após a alta do petróleo pressionar custos energéticos e inflação no continente.
No Brasil, os efeitos são ainda mais sensíveis. Oscilações do dólar afetam cadeias dependentes de importação quase instantaneamente, mesmo em um movimento pontual de apreciação da moeda brasileira frente ao dólar, enquanto custos de transporte, energia e matérias-primas seguem comprimindo margens da indústria e do varejo. Em muitos segmentos, o espaço para repasse de preços se tornou limitado, tornando a eficiência operacional uma necessidade estratégica.
É justamente nesse ponto que o procurement deixou de ser uma área operacional para se tornar uma espécie de “centro de defesa” das margens corporativas. A lógica empresarial mudou. Em um ambiente de alta volatilidade, reagir tarde significa perder competitividade. Por isso, empresas passaram a exigir áreas de compras mais analíticas, integradas às decisões financeiras e capazes de antecipar riscos antes que impactos atinjam o caixa.
Essa transformação também acelerou o uso de inteligência artificial e análise preditiva nas cadeias de suprimento. Segundo a Gartner, os investimentos globais em softwares de supply chain baseados em IA agêntica devem saltar de menos de US$ 2 bilhões em 2025 para US$ 53 bilhões até 2030. O objetivo é claro: monitorar fornecedores, prever oscilações de preços e acelerar decisões em tempo real.
Existe, porém, uma mudança ainda mais profunda em curso. O procurement moderno deixou de atuar apenas como área de eficiência operacional e passou a exercer papel central na construção da resiliência financeira das empresas.
Hoje, a competitividade não depende apenas de crescimento comercial. Depende também da capacidade de absorver choques externos, proteger margens e manter previsibilidade em um cenário econômico global cada vez mais fragmentado. Isso exige profissionais com leitura macroeconômica, visão estratégica e capacidade analítica muito além da negociação tradicional.
A reorganização das cadeias globais, a transição energética e os conflitos comerciais indicam que a volatilidade continuará elevada nos próximos anos. Segundo levantamento recente da McKinsey, as tensões comerciais entre Estados Unidos e China já redirecionaram mais de US$ 165 bilhões em fluxos globais de comércio, acelerando movimentos de regionalização produtiva e reconfiguração das cadeias de suprimento.
Nesse novo cenário, procurement deixou de ser apenas uma área de suporte. Tornou-se uma das principais estruturas de proteção financeira dentro das empresas.
(*) Economista-Chefe na GEP Brasil.


