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Apuração assistida redefine o equilíbrio entre tecnologia e responsabilidade fiscal

em Destaques
quarta-feira, 03 de dezembro de 2025

Considerada um marco histórico na modernização tributária do país, a implantação da Apuração Assistida representa a virada mais profunda já vista na relação entre contribuinte e Estado. Prevista dentro do novo ciclo de digitalização fiscal impulsionado pela Receita Federal, a medida integra o conjunto de iniciativas voltadas à simplificação do sistema tributário e à automação das obrigações acessórias. O modelo rompe com o paradigma tradicional da declaração manual e inaugura um sistema em que o cálculo e a consolidação dos tributos passam a ser automatizados pelo próprio Fisco.

Essa transformação, longe de ser apenas técnica, redefine o papel das empresas: a execução contábil cede espaço à curadoria e à qualidade dos dados. A conformidade tributária deixa de depender da interpretação humana e passa a exigir domínio sobre a integridade informacional. O ponto mais revolucionário desse processo está justamente na mudança de responsabilidade, que migra do preenchimento para a precisão.

Nesse novo cenário, o país inaugura uma era de previsibilidade e integração fiscal. Com bilhões de transações processadas anualmente e atualizações quase em tempo real, o Brasil entra em um estágio tecnológico inédito. No entanto, é preciso reconhecer que automatizar não é sinônimo de simplificar. A automação exige disciplina, governança de dados e maturidade digital. A ilusão de que o sistema fará “tudo sozinho” é perigosa. O novo modelo reduzirá erros e custos apenas para quem estiver preparado para operar com informação estruturada, processos consistentes e gestão proativa. A tecnologia é apenas o meio; a eficiência dependerá da capacidade das empresas de se tornarem curadoras do próprio compliance.

Com base nas estimativas da Receita Federal, mais de 80 bilhões de transações por ano somam cerca de 9 petabytes de dados fiscais. O Brasil está prestes a se tornar um dos maiores ecossistemas tributários do mundo. Isso, porém, não deve ser motivo de euforia, mas de responsabilidade. O desafio não é processar esse volume, e sim garantir que ele seja confiável. O país se move em direção a uma era em que a conformidade será medida pela capacidade de gerar, validar e interpretar dados em escala digital. Nessa perspectiva, a inteligência fiscal se tornará um ativo tão relevante quanto o capital financeiro. Quem não dominar dados perderá competitividade e transparência simultaneamente.

No cerne dessa transição, o sucesso do novo modelo não será determinado pela tecnologia, mas pela qualidade da informação. A Apuração Assistida depende da integridade dos documentos fiscais eletrônicos e da consistência dos XMLs transmitidos. Um único erro técnico pode afetar créditos e débitos em cadeia. Essa realidade muda a lógica do compliance: a revisão posterior deixa de ser suficiente, e a prevenção torna-se indispensável. O dado deixa de ser um diferencial competitivo e passa a ser um pilar de segurança fiscal. O futuro não premiará quem declara corretamente, mas quem gera informações confiáveis desde a origem.

Quanto às empresas, a resistência observada é compreensível, mas equivocada. Não há perda de autonomia, e sim redistribuição de responsabilidades. O Fisco passa a processar as informações, mas a veracidade permanece sob responsabilidade do contribuinte. Essa transição inaugura uma nova forma de cooperação entre Estado e empresas, menos baseada em fiscalização e mais em rastreabilidade. Essa colaboração forçada, embora desconfortável no início, pavimentará o caminho para um ambiente de negócios mais previsível e seguro.

No fim, a transformação provocada pela Apuração Assistida é essencialmente cultural. A relação entre Estado e contribuinte passa a ser mediada pela tecnologia, mas sustentada pela confiança e pela transparência dos dados. O êxito nessa nova etapa dependerá da capacidade de alinhar contabilidade, tecnologia e estratégia fiscal em um mesmo fluxo contínuo. O futuro da tributação brasileira caminha para um modelo de responsabilidade compartilhada, em que a eficiência será inseparável da integridade informacional. A Apuração Assistida não deve ser vista como uma norma adicional, mas como o primeiro capítulo de uma nova mentalidade fiscal baseada em inteligência, cooperação e precisão digital.

*Eduardo Battistella é Gerente de Projetos e Arquiteto de Soluções da Decision IT, especialista em documentos fiscais eletrônicos, SPED e apuração tributária digital. Atua diretamente no projeto piloto da CBS junto à Receita Federal.

(Fonte: Por Eduardo Battistella, Gerente de Projetos e Arquiteto de Soluções da Decision IT, e Lorena Mendes, Analista Tributária da TecnoSpeed)