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Além do Mercosul: O Novo Mapa Comercial da América Latina

em Destaques
segunda-feira, 27 de abril de 2026

Sandeep Wasnik (*)

A América Latina está entrando em uma nova fase de inserção internacional. Não se trata mais apenas de negociar dentro de blocos tradicionais ou de aprofundar acordos existentes, mas de repensar como e a partir de onde as alianças estratégicas são construídas. Esse movimento já se reflete em novos fluxos de capital, como o investimento de R$ 12 bilhões anunciado pelo fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos, na Bahia, e também na participação regional na Cúpula Mundial de Governos, em Dubai, que sinaliza a busca por maior flexibilidade, visibilidade global e acesso a novas redes de tecnologia e investimento.

O caso da República Dominicana ilustra bem esse cenário. Após seu papel de destaque em Dubai, o país anunciou que sediará este ano um diálogo regional do Sistema Global de Governos Mundiais (WGS), posicionando-se como uma ponte entre a América Latina e o Oriente Médio. Não se trata de diplomacia meramente simbólica: o objetivo é atrair investimentos, expertise em governança e cooperação em áreas como sustentabilidade e transformação digital. Em um contexto em que o investimento estrangeiro direto na região poderá atingir US$ 2,5 trilhões até 2030, segundo estimativas regionais, esse tipo de iniciativa adquire crescente valor estratégico.

Esse movimento também reflete uma mudança mais profunda: a erosão de um modelo rígido de integração. O Mercosul continua sendo um ator fundamental, mas o comércio intrabloco permanece estagnado em torno de 20%. Mesmo com o acordo com a União Europeia — que prevê a eliminação de 91% das tarifas — o bloco enfrenta tensões internas e uma pressão crescente por maior flexibilidade. Uruguai, Paraguai e Brasil já vêm explorando acordos bilaterais ou plurilaterais fora da estrutura tradicional, o que demonstra que a lógica do “tudo ou nada” já não se sustenta.

Nesse novo cenário, o Oriente Médio emerge como um parceiro cada vez mais relevante. Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, já investem mais de US$ 12 bilhões no Brasil e impulsionam projetos de energia, logística e portos em diversos países da região. Essa relação não se baseia apenas no comércio de bens, mas sim em uma convergência de interesses: capital, tecnologia, transição energética e cadeias de suprimentos mais diversificadas. Dubai, em particular, funciona como um centro global onde políticas públicas, negócios e inovação se cruzam — algo que a América Latina busca replicar e aproveitar.

Diversificar parceiros não é apenas uma opção, mas uma necessidade. Até 2025, os destinos não tradicionais representarão quase 45% das exportações latino-americanas, em comparação com 35% em 2020. Esses dados confirmam que a região deixou de se concentrar exclusivamente no eixo Estados Unidos-Europa e passou a construir uma rede mais ampla de relações, incluindo a Ásia-Pacífico, o Oriente Médio e acordos bilaterais seletivos. Fóruns globais, cúpulas temáticas e alianças personalizadas estão se tornando tão relevantes quanto os acordos comerciais clássicos.

Para os governos, o desafio é claro: combinar a estabilidade dos blocos existentes com uma diplomacia econômica mais ágil, capaz de aproveitar oportunidades sem ficar presa a vetos internos. Para as empresas, a questão já não é apenas onde investir, mas também a partir de onde operar para obter credibilidade, acesso e escala. Entrar na América Latina por meio de hubs como Dubai pode ser tão estratégico quanto fazê-lo diretamente a partir de capitais da região.

A América Latina não está abandonando o Mercosul nem seus acordos históricos; está ampliando seu campo de atuação. Em um mundo fragmentado e competitivo, aqueles que entenderem que o poder hoje se constrói por meio de múltiplas alianças — e não pela dependência de apenas uma — serão os que definirão o próximo ciclo de crescimento regional. A verdadeira decisão já não é escolher um único parceiro, mas saber atuar em várias frentes simultaneamente.

(*) Consultor em negócios internacionais da agência LatAm Intersect.

Acordo entre Mercosul e UE fracassa e negociação dependerá de Bolsonaro – Jornal Empresas & Negócios