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A intersecção entre creators e inteligência artificial está mudando a forma de consumir conteúdo

em Destaques
segunda-feira, 22 de junho de 2026

Danilo Nunes (*)

Nunca foi tão fácil produzir conteúdo. Hoje, equipes compostas por especialistas junto de agentes de inteligência artificial conseguem criar roteiros, imagens, vídeos, vozes sintéticas e automatizar praticamente todo o ciclo de produção e distribuição de conteúdo. O que antes exigia equipes inteiras pode ser executado em escala por sistemas cada vez mais sofisticados. E por mais revolucionário que soe para gestão de negócios, esse movimento muda a percepção do consumidor final sobre o ecossistema de criação no qual vivemos hoje, aumentando a importância da transparência, autoria e credibilidade nas discussões sobre o futuro da creator economy.

Creators como mediadores de confiança
E quanto mais fácil se torna produzir conteúdo, mais difícil se torna acreditar nele. Não por acaso, a confiança e credibilidade online são temas transversais e recorrentes em debates recentes sobre tecnologia, mídia e criação no SWSX Austin, SXSW London e Cannes Lions 2026. Vindo direto da cobertura do evento em Londres, painéis como ‘Restoring Confidence in Your News’, ;The Rise of Creative & Cultural AI Models’ e ‘How Content Production is Changing’ discutiram justamente como restaurar a credibilidade.

Essa percepção não afeta apenas quem consome informação, mas também quem produz. O relatório Adobe Creators’ Toolkit Report revelou que 69% dos criadores demonstram preocupação com o uso de seus conteúdos para treinamento de sistemas de inteligência artificial sem autorização.

Seguindo esse movimento, ao longo dos últimos anos, vimos empresas deixarem de enxergar creators apenas como veículos de mídia ou campanhas pontuais, e trazê-los como mediadores de confiança, consultores, cocriadores, especialistas e representantes de comunidades específicas. Em um ambiente saturado por informações, as pessoas buscam referências capazes de validar, contextualizar e interpretar aquilo que veem.

O modelo baseado exclusivamente em pagar um criador para recomendar um produto já não gera o mesmo impacto. Consumidoras estão mais atentos, mais informados e céticos em relação às mensagens publicitárias. Nesse contexto, autoridade e relevância em um nicho específico passam a valer mais do que alcance puro.

É por isso que vemos médicos, nutricionistas, veterinários, educadores e outros profissionais especialistas assumindo um papel cada vez mais relevante dentro de estratégias de aquisição, criando uma nova categoria de business creators na creator economy. Não necessariamente pelo tamanho da sua audiência, mas pela relevância e confiança que possuem naquele território.

Ao mesmo tempo, plataformas como a Meta vêm fortalecendo soluções que aproximam influência e performance. Anúncios com a ferramenta de Partnership Ads permitem que marcas utilizem não apenas a criatividade dos creators, mas também os sinais de confiança construídos por eles junto às suas comunidades. A própria evolução dessas ferramentas mostra que a creator economy está migrando de um modelo baseado exclusivamente em alcance para um modelo sustentado por credibilidade.

Avatares de inteligência artificial vendendo produtos que nunca usaram
Nos últimos meses, vimos crescer o uso de avatares gerados por IA para simular conteúdos que imitam a estética do UGC (User Generated Content). São vídeos que reproduzem depoimentos de consumidores, recomendações de produtos e relatos de experiências supostamente reais. Na prática, porém, apresentam pessoas que nunca existiram falando sobre produtos que nunca utilizaram.

O valor do UGC sempre esteve na experiência genuína de alguém compartilhando uma vivência real. E o mercado corrompeu essa ideia nos últimos anos muito por influência norte-americana na forma de produzir conteúdo de performance. Enquanto o UGC de verdade exige uma ativação de CRM, comunidade e engajamento, o que se vê sendo feito com marcas e o que chamamos de CGC (creator generated content), onde existe uma relação comercial onde a marca briefa e paga pelo conteúdo – que é utilizado para assets de performance, independente da audiência e comunidade daquele criador.

Quando uma marca substitui essa experiência por um personagem artificial sem transparência, ela compromete justamente o ativo mais importante da comunicação contemporânea: a credibilidade. E pior: além da questão ética, existe uma discussão legal. O Código de Defesa do Consumidor estabelece que toda publicidade enganosa é proibida. Dependendo do caso, a prática pode gerar sanções civis, multas e até detenção.

Isso não significa que a inteligência artificial não tenha espaço na publicidade. A tecnologia pode ser extremamente útil para criar demonstrações de uso, representar diferentes perfis de consumidores, adaptar campanhas para múltiplos contextos ou acelerar processos criativos. O problema não está na ferramenta, mas na tentativa de utilizar a tecnologia para simular experiências humanas inexistentes (e enganar o consumidor).

No fim das contas, a verdadeira discussão é sobre quem continuará merecendo a confiança das pessoas em um ambiente onde praticamente qualquer conteúdo pode ser produzido em escala.

Em um cenário onde conteúdo, alcance e produção caminham para se tornar commodities, confiança, transparência e autoridade humana tendem a se consolidar como os ativos mais valiosos da internet. Se a última década foi marcada pela disputa por atenção, a próxima será marcada pela disputa por credibilidade.

(*) Professor, pesquisador da Creator Economy, fundador e CEO da Nudgy, primeira consultoria brasileira especializada em construir e operar sistemas criativos orientados à performance, integrando frameworks de criação, alavancas de growth e inteligência artificial para marcas que buscam escalar operações em mídia paga online nos canais DTC.

Consumir menos gera economia e preserva o meio ambiente – Jornal Empresas & Negócios