Suplente perigoso

Heródoto Barbeiro (*)

O suplente é o pivô da crise. A constituição brasileira abriga mais uma jabuticaba, cada senador tem direito a dois suplentes.

São três senadores e seis suplentes por estado. Vale também para o Distrito Federal. Eles sonham com o momento que vão assumir o mandato e garantir visibilidade para um outro voo político e as benesses garantidas com o bolso do contribuinte, como ajudas de custo, plano de saúde e odontológico. Mas para isso precisa ficar como titular do mandato durante um determinado período, como é costume no Senado Federal.

Geralmente o primeiro suplente é um desconhecido empresário que não tem voto, mas tem dinheiro. Banca a campanha, ou melhor compra a suplência, e depois negocia qual o período que vai senatoriar a seu favor e aos que representa. Não há pressa, o mandato é de oito anos e há tempo suficiente para que o cargo seja irmanamente dividido entre o financiador e o financiado. É um jogo que tem o beneplácito da mais recente constituição brasileira, a de 1988.

Por que não um só senador por estado sem nenhum suplente? Ninguém quer assumir a paternidade dessa jabuticaba. A sede pelo poder coloca o titular e o suplente em campos opostos. É inevitável. Este arma uma ampla campanha através da mídia para atacar o senador pelo estado do Rio de Janeiro. Planta notícias que atacam o passado do senador e sugerem que tem ligação com as milícias que dominam os morros da capital do estado.

Teria referendado um acordo tácito com a bandidagem para que não descessem dos morros e não atacassem a classe média ilhada nos prédios à beira mar. Como uma pessoa como essa poderia ser senador da república.? Nem mesmo com o apoio de seu tutor, detentor de grande apoio popular e dos votos no estado. Era um vira casa, um político sem caráter, que merecia uma investigação mais profunda da Polícia Federal ainda que protegido pela toga senatorial. A guerra fica cada vez mais intensa com a formação de blocos de apoio de lado a lado.

O suplente conquista aos poucos a máquina burocrática do partido e tem mais armas para congelar a ação do titular. Quem vai levar a melhor nessa disputa política ninguém sabe. O acordo é que financiador receberia em troca ao financiamento do titular metade do mandato. Quatro anos para cada um. Contudo o senador teria que pedir afastamento para que o suplente assumisse, mas isso ele descarta totalmente. A questão é que o senador admite que daria ao financiador os dois últimos anos de mandato e não quatro como espalhava o suplente.

Sem acordo resta uma guerra de versões que envolve políticos de vários matizes, da esquerda e da direita. O senador Saturnino Braga diz que sofre um linchamento político, mas que não abre mão de sair na rua. Repara que as pessoas fazem piadinhas e sente o desprezo da população. Argumenta que a mudança dos ventos políticos impedem que abra mão de parte do mandato para o suplente Carlos Luppi, o novo dono do PDT – o Partido Democrático Trabalhista – fundado por Leonel Brizola.

Os melhores suplentes de senadores são filho, filha, esposa ou sócios de atividades comuns. Alguém de confiança que não mude de lado e não espalhe boatos que possam pôr em risco o mandato do titular.

(*) – É editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma (www.herodoto.com.br).

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