Militares na porta do palácio

Heródoto Barbeiro (*)

Há um debate inflamado se miliares podem ou não participar da política.

Há quem defenda que eles são cidadãos fardados e por isso tem o direito e o dever de se envolver na solução dos problemas nacionais. Outros são partidários da separação entre militares e civis. O governo deve estar nas mãos dos civis e não na caserna.

Ainda assim há um influente militar que é favorável ao pronunciamento político na mídia, e ensina aos jovens cadetes da academia que a república ditatorial é a melhor forma de governo. Está sempre na mídia com artigos ou reportagens. Sem um governo forte, austero, autoritário e dominante em todo o Brasil, o país não sai do subdesenvolvimento, diz o professor.

Há planos para o crescimento econômico além das fronteiras do agronegócio. Só o desenvolvimento da infraestrutura e de indústria são capazes de arrancar o poder das mãos dos latifundiários que infelicita a pátria desde a instalação da indústria canavieira no nordeste ainda no começo da colonização. O debate esparrama dos quartéis para as ruas e destas para os jornais. Também na mídia há quem defenda o status quo e os que são favoráveis a uma transformação profunda na forma de governar o Brasil.

O povo aparvalhado não tinha lugar em plano nenhum. O movimento para derrubar o governo e não o regime, conta com poucos deputados na câmara e quase nenhum no senado, uma casa considerada essencialmente conservadora. Assim, grupos de civis se reúnem especialmente na capital da república para conspirar. É verdade que há liberdade de imprensa e os jornais oposicionistas aprofundam a crise política o quanto podem.

Abrem manchetes contra o governo, escondem notícias favoráveis e dão grandes espaços para críticos do regime. O Brasil é o único país das Américas que mantém um sistema incompatível com os ideais dos fundadores das diversas nações latinas.
Mais de uma vez as mudanças nacionais foram feitas por alianças político-cívico-militares. Por que agora seria diferente?

O sistema não se atualiza, está totalmente incompatível com as mudanças do mundo cada vez mais industrializado e capitalista. O Estado é acusado de ser refratário a uma reforma que modernize o país e permitir a ascensão de pessoas vindas de outros estratos do Brasil. É uma luta entre o passado e o futuro dizem os conspiradores.

Os conspiradores, militares e civis, não movimentam o povo. Política é apenas para um grupo que tem acesso ao poder. O chefe do governo pune os militares que desrespeitam o regulamento dos quartéis e são ameaçados de prisão. Há movimentação de tropas nos quartéis e a qualquer momento eles poderão sair para o centro da cidade e começar uma revolução. Falta um chefe.

Os jovens cadetes, liderados pelos seus líderes militares, professam a ideologia comtiana. Para isso é preciso derrubar não o chefe de governo, Visconde de Ouro Preto, mas o próprio imperador Dom Pedro II. O chefe escolhido é um herói da guerra do Paraguai, marechal do exército, monarquista e amigo do imperador, Deodoro da Fonseca. A conspiração usou e abusou das fake knews. Os mais estranhos boatos circulam nos jornais, nos quartéis e nos elegantes cafés do Rio de Janeiro.

Os ânimos se acirram ainda mais. Os conspiradores convencem Deodoro a liderar uma tropa para derrubar Ouro Preto, acusado de mandar prender o marechal. Uma vez na praça, novas fake News. Todos serão presos. Deodoro adere aos republicanos e assina o documento que põe fim ao império, instaura a república e vai ser o chefe do governo provisório.

Inaugura-se um ciclo de intervenções militares na política que chega ao auge em 1964. E o povo ?

(*) – É jornalista do R7, Record News e Nova Brasil fm. Professor e Jornalista, Palestras e Midia Training (www.herodoto.com.br).

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