Militar discursa na ONU

Heródoto Barbeiro (*)

A plateia é global. É uma rara oportunidade para que chefes de estado, democráticos ou não, façam a sua aparição triunfal. É uma oportunidade que ocorre somente uma vez por ano.

A mídia se divide entre os que atacam o discurso do presidente e os que elogiam. Há uma enxurrada de análises em todas as plataformas. Afinal, dizem alguns críticos, ele é um militar que apoiou o golpe de 1964. As grandes potencias reafirmam sua hegemonia e compromissos com a paz, crescimento econômico e ajuda aos parceiros fieis.

Os pequenos países fazem críticas às potencias e denunciam o que entendem ser uma ameaça à segurança de todos. Há um protocolo que ninguém deve falar mais do que 15 minutos para expor sua mensagem.

A ONU garante que todos os chefes de estado entrem e saiam dos Estados Unidos, sem nenhum constrangimento. Mesmo os acusados de ditadura, violação dos direitos humanos, corruptos, traficantes, mandantes de assassinatos de opositores políticos.

Ninguém tem nada a temer, há uma inviolabilidade garantida na carta da ONU. Por isso os desafetos aproveitam a abertura da Assembleia Geral para discursar e defender o que bem entendem. É verdade que nem todos os representantes dos membros precisem ficar no plenário. Em sinal de protesto podem se levantar e sair. Isto também dá destaque na mídia mundial, com direito a imagem e reportagens.

A tradição da Organização das Nações Unidas é que os discursos na Assembleia Geral sejam feitos pelos ministros das relações exteriores dos países. Os chanceleres como dizemos aqui. São homens de longa carreira diplomática, conhecedores dos bastidores da política internacional e fieis intérpretes das mensagens do governo que representam.

Enquanto a tradição durou, os discursos eram duros, técnicos, burocráticos e o público em geral não dava muita atenção a eles. O conteúdo sofria a análise técnica dos especialistas que passavam para os jornalistas credenciados.

Estes por sua vez se esforçavam para encontrar notícias que chamassem a atenção do público em geral. Afinal a ONU é um local onde se discute o futuro do mundo, a sobrevivência da humanidade e do meio ambiente, enfim os temas que afetam a todos em todos os continentes.

E na Assembleia Geral cada país tem um voto. Nenhum tem o direito a veto, privilegio de cinco potencias que se encastelam no Conselho de Segurança. Os demais membros do conselho não tem esse direito. Há inúmeros países que anseiam em fazer parte dos membros permanentes pelos mais diferentes motivos, até mesmo histórico e tradicional como o Brasil.

Os políticos descobrem a tribuna da ONU. E nunca mais abrem mão dele. Em plena guerra fria, americanos e soviéticos ameaçam-se mutuamente em cada abertura da Assembleia Geral. E o presidente do Brasil também. O ministro das relações exteriores perde o lugar para o presidente da república. Agora é ele que usa o tempo e a tribuna para não só defender o seu governo, como para criticar as grandes potências.

Para surpresa geral pede um mundo novo e que é necessário caminhar para a implantação de uma interdependência verdadeiramente solidária entre América Latina, África e Ásia. Fica claro no discurso presidencial que ele fala muito mais para o público do seu próprio pais do que para a comunidade global.

Afinal a imprensa internacional diz que a democracia corre risco no Brasil, há uma ameaça de um novo golpe militar para sufocar a oposição e os que desejam a democracia. A violação dos direitos humanos é outro tema sensível, apesar das negativas do governo.

O general João Figueiredo inaugura a presença de presidentes brasileiros na tribuna da ONU em 1982. Ultimo mandatário da ditadura militar ele foca sua fala em temas gerais e internacionais e não toca na política interna nem nas ameaças ao regime democrático.

(*) – É âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

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