A mudança forçada e o papel das lideranças

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Imagem: Renato Martinelli

Renato Martinelli (*)

Metamorfose da borboleta é uma transformação que acontece em quatro etapas: o ovo, a larva, a pupa e o estágio adulto. O ciclo começa com as borboletas colocando os ovos em folhas de plantas, que após alguns dias e com as condições do clima e da planta sendo favoráveis, inicia seu processo de transformação em larva. Como lagarta, o animal come mais para crescer e guardar energia, durante meses ou até um ano. Ao chegar na fase de pupa, após outras mudanças em si mesmo (pele, tamanho, produção de fios de seda), inicia-se a construção do casúlo. Em um período que leva de 7 a 30 dias, a larva fica em repouso absoluto dentro do casúlo e os seus tecidos vão se modificando, até virar uma borboleta. Quando todo esse processo se conclui e a borboleta está pronta, ela rompe o casulo e libera as asas, começando uma nova jornada de vida.

Quando se fala em processo de transformação, a analogia com a metamorfose da borboleta é direta. A mudança é  inevitável e natural . A questão maior a se pensar é como lidar com as mudanças inesperadas, que pegam a gente de surpresa. Os impactos da pandemia do Covid-19 no Brasil e no mundo promoveram diferentes reações nas pessoas, nas organizações e nos governos, cada qual reagindo de diversas maneiras.

Contudo, meu olhar será para as pessoas e seu processo para lidar com o novo, o inesperado, como a situação atual nos provocou semanas atrás. O impacto fez com que pessoas no geral – eu inclusive – tivessem sentimentos legítimos e esperados. Para compreender melhor esse processo e o que fazer durante esse período, uso a Curva de Mudança de Kubler-Ross para compartilhar conhecimento e mostrar que as pessoas passam por determinados estágios para lidar com mudanças.

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Negação: As têm medo do desconhecido. Não sabem como proceder, o que pode ou não pode. Então, esta é uma fase em que existe um mecanismo de autodefesa temporário, e leva tempo para processar certas mudanças. A pessoa pode não querer acreditar no que está acontecendo e isso pode fazer com que o indivíduo demonstre resistência, impaciência e permaneça focada no passado. O medo de perder o emprego, a receita, junto com a dificuldade de pagar as contas, entra tudo nessa primeira etapa. Para as lideranças, é preciso CRIAR ALINHAMENTO necessário para manter o foco da equipe.

Frustração: Aqui é um outro ponto de atenção, pois quando a pessoa percebe que terá que adotar práticas e comportamentos diferentes do que estava habituada, pode ficar bravo(a), com raiva e pode procurar alguém para culpar e transferir a responsabilidade, já que sente dificuldades em lidar com o novo. As mudanças no processo de trabalho, o home office forçado e intenso com as demandas da casa e da família (em especial para quem tem filhos), geram um caos momentâneo – às vezes, nem parece que passamos dessa fase. Sugere-se aos líderes MAXIMIZAR A COMUNICAÇÃO, para que os objetivos sejam claros, coerentes e aderentes ao indivíduo e à organização, mostrando que as mudanças fazem parte da vida e da empresa, dizer o que será feito, dar direção e potência, além de reduzir as angústias.

Depressão: É um estágio em que a pessoa tende a sentir tristeza, medo, arrependimento e culpa. Pela dificuldade de promover as mudanças ou ainda continuar nos estágios anteriores, de Negação e Frustração, pode mostrar sinais de cansaço, reclusão, falta de iniciativa e energia no trabalho. Se você ou alguém da sua equipe está assim, é um sinalizador de que algo deve ser feito. A saúde mental tempos é crítica. Nesse ponto, é fundamental o envolvimento das lideranças, e é necessário REFORÇAR A MOTIVAÇÃO, valorizar a pessoa e seu trabalho, oferecer apoio e empatia.

Experimentação: Como resultado positivo da resposta da pessoa à situação, como adaptação à nova rotina profissional e a realização de entregas no seu escopo de trabalho, a pessoa tende a fazer as mudanças e colocar em prática os novos conhecimentos e as habilidades, experimentando os resultados diferentes que, até então, a pessoa estava acostumada. Contando com o apoio e a confiança da liderança, gestores devem contribuir para DESENVOLVER NOVAS CAPACIDADES em seus liderados e permitir que o indivíduo realmente consiga alcançar os ganhos esperados.

Decisão: Depois do processo de aprendizagem e do apoio da liderança, o indivíduo começa a racionalizar e entender os novos processos e comportamentos necessários, a ponto de mudar seu jeito de trabalhar, agregando os novos conhecimentos às funções profissionais. O que era desafiador no começo passa a ser mais fluido e orgânico. Como a curva de aprendizado é alta nesse momento, a capacidade de realização é maior e o sentimento é mais positivo. No papel dos líderes, é preciso COMPARTILHAR EXPERIÊNCIAS, para que a pessoa amplie seu repertório e que possa ter mais segurança e autoconfiança para avançar mais a partir desse nível de desenvolvimento.

Em qual estágio da mudança você está? Se você é líder, consegue identificar em qual fase da mudança estão cada um dos liderados? A pandemia nos forçou a mudar, não foi uma escolha, e sim uma necessidade. Nenhum planejamento estratégico empresarial previu isso antes. Nem as pessoas, que foram pegas de surpresa quando a trasmissão do coronavírus iniciou no Brasil. O fato é que temos e precisamos mudar. Praticamente todos nós passamos ou passaremos pelos estágios da curva da mudança. A questão é saber como acelerar o processo para as etapas de Experimentação e Decisão.

Não temos o mesmo tempo que a borboleta para fazer nossa metamorfose. Há uma série de fatores que interferem nas suas decisões, mas a transformação começa por você. Perceba como o momento te provoca para criar coisas novas, fazer o que não fazia, aprender algo desconhecido, e que tudo isso esteja ligado com seu PROPÓSITO, e que tenha direção e potência para te alavancar para o próximo estágio.

(*) É membro dos Empreendedores Compulsivos, Trainer de Comunicação, Propósito e Performance, e tem como foco ajudar pessoas a desenvolverem competências de comunicação para potencializar engajamento e resultados com equipes e clientes.  Possui mais de 20 anos de carreira, agrega experiências e conhecimentos em empresas nos setores de Agronegócio, Automobilístico, Alimentos e Bebidas, Comércio, Construção, Farmacêutico e Químico, Financeiro e Seguros, Papel e Celulose, TI e Telecom, Varejo. É especialista em temas relacionados à Comunicação, Liderança, Gestão de Equipes de Alto Desempenho e Gestão de Conflitos, Vendas, Negociação e Articulação de Soluções.

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