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Liderança Figital: o burnout das presenças invisíveis

em A Outra Sala
terça-feira, 14 de outubro de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

Tem gestor que acha que liderar no híbrido é só alternar home office e happy hour.
Mas o “modo figital”, esse Frankenstein entre o físico e o digital, está derretendo líderes que ainda confundem presença com planilha aberta.

A questão não é mais onde você lidera.
É por quantas dimensões você enxerga.

O líder 2D num mundo 4K

Voltamos para o escritório com o discurso de “retomar o contato humano”.
Tradução: queríamos confirmar se ainda mandamos em alguém.

Mas o que realmente falta é profundidade de leitura, não Wi-Fi.
O híbrido escancarou a cegueira dos que só operam em “modo controle remoto”, medindo produtividade por presença e engajamento por silêncio.

Resultado:

  • Gente que aparece na tela, mas não se sente vista.
  • Reuniões para “alinhar expectativas”, mas ninguém sabe o que sustenta o vínculo.
  • E líderes esgotados de tentar sustentar presenças que não se encontram, nem dentro deles.

A leitura prismática: as quatro lentes que faltam

A Metodologia Prismática propõe algo que a tecnologia ainda não simulou:
olhar multifocal.
Enquanto o mundo corporativo vive de filtros, o líder prismático treina o olhar para ver camadas invisíveis.

  1. Prisma Estrutural – O que se vê
    O plano tangível: metas, tarefas, deadlines.
    Sem os outros prismas, vira tirania da planilha.
    Exemplo: o líder que liga a câmera para “ver se estão trabalhando”, mas nunca pergunta se o time entendeu o propósito.
  • Prisma Relacional – O que atravessa
    O campo da emoção, da escuta e do afeto organizacional.
    Segundo a Harvard Business Review, líderes empáticos aumentam em 76% a segurança psicológica no remoto.
    Exemplo: trocar check-ins de status por check-ins de estado (“Como você chegou hoje?”).
  • Prisma Simbólico – O que sustenta
    Aqui mora o invisível: rituais, linguagem, cultura.
    O híbrido sem símbolos vira mosaico de ruídos.
    Exemplo: o café no Zoom não é sobre cafeína, é sobre pertencimento.
  • Prisma Existencial – O que te move
    O raio que falta nos MBAs: propósito real.
    A IA pode imitar competências, mas não consciência.
    Exemplo: o líder que diz “não sei” e, paradoxalmente, ganha respeito.

Diagnóstico: cansaço de contexto

O novo burnout é de contexto.
A mente não aguenta trocar de sala física e virtual sem trocar de energia.
Estamos todos em modo avião emocional: presentes em todos os lugares, inteiros em nenhum.

A proposta prismática: integrar, não alternar

Ser líder figital não é ser meio de cada coisa.
É ser inteiro em cada presença.

Na prática:

  • Faça o que o algoritmo ainda não faz: ler subtexto.
  • Use a câmera para ver, não vigiar.
  • Crie rituais híbridos com sentido, não com pauta.
  • Valorize o silêncio. Ele também trabalha.
  • Lidere pelo campo, não pelo chat.

A liderança figital não é mistura de mundos, é maturidade de presença.
É saber que o líder contemporâneo precisa operar entre telas e almas, metas e metáforas.

Porque, convenhamos:
quem não aprendeu a se ver, também não enxerga ninguém.

“No mundo figital, o líder precisa ser menos gerente de agenda e mais guardião de presença.”
A Outra Sala

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.