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A violência gourmetizada

em A Outra Sala
terça-feira, 23 de setembro de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

A gente sempre acha que violência é tapa, grito, sangue na calçada.
Mas e quando a violência vem em versão premium?
Com cobertura de pistache, nome em inglês e aplausos no LinkedIn?

Quando você passa 14 horas no escritório e chama isso de comprometimento.
Quando engole três calmantes e posta no Instagram: “autocuidado é essencial”.
Quando compra vinho de 200 reais para anestesiar o mesmo vazio que sua avó já resolvia com groselha.

Violência não é só o marido que humilha ou o chefe que grita.
Violência é rir da colega que chora no banheiro, enquanto você mesmo já chorou escondido no chuveiro.
É achar absurdo que alguém “ainda esteja em relacionamento abusivo”, quando você mantém um casamento tóxico com sua própria planilha.

Pierre Bourdieu chamaria isso de violência simbólica.
Freud, de pulsão de morte.
Eu chamo de autoespancamento gourmetizado.

Quer um exemplo simples?
O donut que você paga caro em cafeteria de shopping é só um bolinho de chuva remasterizado.
E a sua exaustão premiada como “alta performance”? É só escravidão com crachá e cobertura de engajamento.

O corpo, coitado, não entende ironia. Ele cobra a conta: gastrite, burnout, crises de ansiedade.
E lembra você — como um cobrador inconveniente — que o colapso nunca vem parcelado sem juros.

E aqui faço uma pausa. Não fique bravo comigo. Eu sou dessas vozes antigas, meio vó, que trazem verdades indigestas, mas sempre com afeto.
E como estamos em setembro, mês de falar sobre prevenção ao suicídio, preciso lembrar: nem sempre é o ato extremo que denuncia o sofrimento, mas os excessos silenciosos do dia a dia, os autoadoecimentos causados pelas emoções que não aprendemos a administrar.

Por isso, a pergunta não é para ferir, é para chacoalhar com cuidado:
Será que você está mesmo construindo uma carreira ou apenas colecionando hematomas invisíveis?
Será que você está vivendo o sucesso ou ensaiando, sem perceber, um adoecimento em câmera lenta?

Esse texto não é um veredito, é um convite.
Convite a olhar para dentro, a pedir ajuda quando for preciso, a cultivar pausas e espaços de vida no meio da correria.
Porque, sim, dá para ser forte sem se destruir.
Dá para ser comprometido sem se violentar.

Na outra sala, aquela que só você entra, não existe KPI, ranking ou meta.
Só a chance de se olhar no espelho rachado e se permitir estar inteiro.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.