Ana Luisa Winckler (*)
O futuro da saúde não é mental.
É relacional (e isso vai mexer no bolso das empresas).
A gente passou os últimos anos transformando saúde mental em produto:
app de meditação, mapa da ansiedade, trilha de mindfulness entre uma reunião e outra, campanhas com cores pastéis falando sobre “cuidar de si”.
E enquanto isso?
O mundo do trabalho ficou mais solitário do que nunca.
Sistemas que premiam isolamento, metas que esmagam vínculos, lideranças que confundem respeito com controle, e culturas inteiras onde as pessoas passam o dia “convivendo”, mas não se encontram.
Agora começa a surgir um discurso novo:
o futuro da saúde é SOCIAL.
E todo mundo finge que sempre soube disso.
Mas me deixa abrir a porta da Outra Sala pra você ver o que está acontecendo lá dentro:
1. As empresas descobriram a conexão… e já querem empacotar.
Modelos de negócio prometendo “comunidade”, “pertencimento”, “segurança psicológica”, “rede de apoio” …
Tudo lindo, até virar KPI, meta trimestral e post de employer branding.
O risco?
Transformar vínculo humano na nova moeda corporativa.
Como quem vende café gourmet, só que agora vendendo afeto em cápsulas.
2. A economia da solidão está crescendo.
Tem gente alugando “amiga por hora”.
Tem robô cuidador substituindo vínculo.
Tem CEO prometendo amizade feita por IA, com direito a terapeuta artificial “que não te julga”.
A pergunta é simples e brutal:
o que acontece com uma sociedade que terceiriza até o afeto?
3. O erro da saúde mental vai se repetir se a gente não ficar atenta.
A gente patologizou tudo.
Transformou dor social em “desordem individual”.
Criou uma indústria milionária em cima de sintomas que nascem de estruturas desumanas.
Agora, corremos o risco de fazer o mesmo com a saúde social:
simplificar, higienizar, gamificar, vender.
4. Relações não cabem em metodologia, nem em OKR.
Não existe “iniciativa de conexão” que sobreviva a lideranças tóxicas.
Não existe “cultura do encontro” onde o medo governa.
Não existe “comunidade corporativa” onde ninguém tem tempo para almoçar.
A gente quer vínculo, mas continua adoecendo qualquer coisa que tenta ser humana demais.
5. Se o futuro da saúde é social…
O futuro das empresas será político.
Porque conexão não é evento temático.
É estrutura.
É decisão.
É coragem de mudar o que machuca.
Cuidar das relações é mexer em poder, fronteiras, ego, tempo, rituais, prioridades e métricas.
E, principalmente, é aceitar que nenhuma organização é saudável se as pessoas estão vivendo isoladas dentro dela.
O amor — sim, ele — será em breve o maior indicador de performance coletiva.
Não o amor romântico, fofinho, instagramável.
O amor como ética: cuidado, responsabilidade, consistência, reciprocidade.
Se a saúde mental já colapsou, a saúde social está batendo na porta.
O que as empresas vão fazer com isso?
Transformar em produto?
Ou transformar em cultura?
A Outra Sala já sabe a resposta.
Mas o resto do prédio ainda precisa de coragem para entrar.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
