Neiva Mendes (*)
Já viu ou viveu esta história? Um casal se encontra para jantar e, durante o bate-papo, ela começa a fazer um desabafo. Ele, na melhor das intenções, já oferece a solução.
Apesar das boas intenções, existe um “ruído” nessa conversa que os “desconecta” emocionalmente. É como se estivessem falando “idiomas” diferentes na mesma língua, e a ciência nos ajuda a entender o porquê.
A linguista Deborah Tannen popularizou a ideia de que a comunicação masculina tende a ser instrumental, focada em informar, resolver problemas e estabelecer hierarquia. Já a feminina seria mais socioemocional, buscando o vínculo, a conexão e a empatia. Mas será que a culpa é do nosso cérebro? A neurociência nos mostra que, sim, existem diferenças na forma como ativamos certas áreas cerebrais durante a fala. Estudos de neuroimagem sugerem que mulheres podem ter uma maior integração entre as áreas de emoção e linguagem, o que facilita a expressão de sentimentos. Já os homens tendem a ter conexões mais fortes dentro de um mesmo hemisfério, o que pode favorecer o foco e a objetividade.
Mas vale ressaltar que essas características não são um destino, são apenas um ponto de partida! Nosso cérebro se molda com o tempo, e a socialização tem um papel gigantesco nisso. Desde a infância, meninos são frequentemente incentivados a competir e a buscar soluções rápidas (reforçando a dopamina da “resolução”), enquanto meninas são estimuladas a cooperar e a ouvir (fortalecendo a oxitocina do “vínculo”). Não se trata de um cérebro “masculino” ou “feminino”, mas sim de padrões que aprendemos e que também podemos mudar!
Pensando nessa combinação de biologia, cultura e neuroplasticidade, podemos concluir que o caminho para conversas mais produtivas não está em escolher um lado, mas em construir pontes e unir perspectivas. No ambiente de trabalho, por exemplo, equipes que combinam comunicação direta com a escuta genuína da necessidade do cliente são mais felizes, engajadas e eficientes.
Para alinhar razão e emoção, algumas práticas bastante conhecidas podem ajudar a “reprogramar” nossos circuitos neurais. Definir o propósito da conversa é uma delas: antes de começar, vale perguntar (ou perguntar ao outro) se a necessidade ali é desabafar ou encontrar uma solução prática. A escuta ativa também faz diferença: concentrar-se de verdade no que está sendo dito e, quando útil, parafrasear para demonstrar compreensão. Validar os sentimentos antes de propor caminhos ajuda a evitar que a conversa se transforme em confronto. E praticar a pausa consciente, um pequeno intervalo antes de responder, reduz impulsividade e possibilita uma resposta mais equilibrada.
São sugestões simples, conhecidas e frequentemente repetidas. No entanto, quando praticadas com frequência, podem ajudar a explorar a plasticidade cerebral e promover uma nova forma de comunicação muito diferente daquela em que fomos educados a aceitar.
Ao praticarmos a comunicação com a intenção de compreender antes de convencer, e de ouvir com atenção, nossos cérebros entram em uma sintonia que faz a conversa deixar de ser um campo de batalha e se tornar uma verdadeira colaboração.
(*) Atual presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia.
