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Venture builders regionais

em Artigos
sexta-feira, 16 de maio de 2025

Ana Paula Debiazi (*)

Em um país com dimensões continentais e realidades sociais e econômicas tão diversas quanto o Brasil, a concentração da inovação em poucos polos representa um desafio estratégico. Atualmente, cerca de 60% das startups brasileiras estão localizadas em apenas quatro estados, segundo dados da Associação Brasileira de Startups (Abstartups). Essa centralização, especialmente em torno de São Paulo e Rio de Janeiro, limita o alcance das soluções desenvolvidas e exclui regiões com grande potencial de transformação. É nesse cenário que ganha força o papel das venture builders locais, estruturas que apoiam a criação de empresas a partir das necessidades e vocações locais.

Modelo em expansão e com resultados concretos
As venture builders estão crescendo de forma contínua no Brasil, impulsionadas por uma combinação de fatores, entre eles: a busca por soluções mais eficazes e a necessidade de reduzir riscos no lançamento de novos negócios. Segundo um estudo da consultoria McKinsey, empresas que direcionam ao menos 20% do capital de crescimento para esse modelo apresentam, em média, crescimento de receita dois pontos percentuais superior àquelas que não investem em venture building. Em mercados competitivos, essa diferença pode representar uma vantagem significativa. Diferente de aceleradoras ou fundos de investimento, as companhias não apenas financiam, mas criam negócios desde a base. Elas oferecem capital, talentos, infraestrutura, validação de mercado e metodologias próprias para acelerar o desenvolvimento de ações inovadoras, que quando pensadas de forma regional, conseguem conectar esse aparato às especificidades locais.

Inovando com sotaque e conexão com o território
O diferencial das empresas locais está na capacidade de transformar desafios específicos de uma região em soluções escaláveis. Ao contrário do que ocorre quando modelos urbanos ou estrangeiros são aplicados sem adaptações, essas iniciativas nascem a partir de contextos reais, próximos das comunidades que pretendem impactar. Isso permite que o que é desenvolvido seja mais eficaz, sustentável e conectado com as necessidades da população.

Em vez de forçar um encaixe de soluções importadas, essas estruturas constroem startups com sotaque, moldadas pelas particularidades econômicas, culturais e sociais de cada região. E fazem isso com apoio prático e estratégico, ajudando a reter talentos, estimular a economia local e criar novas referências de sucesso fora dos grandes centros.

Desenvolvimento nacional começa pela descentralização
O fortalecimento das venture builders regionais é mais do que uma tendência — é uma necessidade para o desenvolvimento nacional. Startups criadas a partir de realidades locais têm maior chance de sucesso, geram empregos qualificados e dinamizam economias que, historicamente, ficaram à margem dos grandes investimentos em inovação.

Além de fomentar o empreendedorismo, essas iniciativas contribuem para uma redistribuição mais justa de oportunidades e recursos, promovendo o engajamento de universidades, governos, setor produtivo e investidores. No entanto, para que esse movimento ganhe escala, ainda há desafios importantes: a concentração de investimentos no Sudeste, a baixa articulação entre os agentes regionais e a escassez de políticas públicas voltadas à inovação fora dos grandes centros.

Em um Brasil tão diverso, pensar em inovar apenas a partir de seus principais polos é limitar o potencial de transformação do país. As venture builders regionais mostram que é possível criar negócios de impacto fora do eixo tradicional, conectando capital, conhecimento e território. O próximo passo é fortalecer esse modelo, ampliando sua presença, conectando seus atores e estimulando uma visão de inovação verdadeiramente nacional.

(*) CEO da Leonora Ventures. E-mail: [email protected]