Uma outra crise dentro das empresas

Hovani Argeri (*)

No Brasil, há uma enorme lacuna entre discurso e prática.

Em suas vidas profissionais, as pessoas falam em engajamento, em comprometimento, em senso de time, em honestidade (como se ser honesto fosse uma virtude e não obrigação). Na realidade, poucos levam este discurso a sério, o que expõe empresas a riscos sérios. Para ilustrar isso, farei uma alusão breve e sucinta ao artigo 18 do Código Penal, que prevê os tipos de conduta do agente que comete um crime.

Define que o crime doloso ocorre quando se quis o resultado ou se assumiu o risco de produzi-lo (incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984). Já o crime culposo é o que resulta de imprudência, negligência ou imperícia (incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984).
Com base nessa ilustração, um dos perfis profissionais que observaremos é o que age com dolo. É o mais simples de se entender, mas nem tão fácil de ser identificado em uma organização. Com desvio de conduta, atua, no exercício de seu cargo, em detrimento da empresa, como alguns exemplos revelados pela Operação Lava Jato.

Há o imprudente. O profissional não utiliza os meios para mitigar os riscos da empresa ou maximizar seus resultados. Sua falha está na não observância dos padrões profissionais obrigatórios, quer por processos e normas internas da companhia ou de sua atividade. Por exemplo, um contador que altera o balanço da empresa, a pedido da direção e, em detrimento aos interesses dos acionistas, omite a real situação financeira da companhia.

Existe ainda o despreparado, que no exercício de sua profissão não detém as habilidades necessárias à sua execução. Este é, por exemplo, o caso do motorista que não reconhece os sinais de trânsito. Em nossa alusão, é tratado pela legislação de imperito.

O negligente é o profissional que atua com desídia. Não cumpre os padrões definidos pela empresa e não segue o rigor técnico de sua profissão. Ignora os riscos a que expõe a organização, seus colegas e a si mesmo. Não visa lucros. Trabalha pouco e exige muito: transfere suas responsabilidades aos colegas e não cumpre com suas obrigações. Com esse perfil, há os campeões em atestados médicos para faltas que não têm motivo real.

Se a crise econômica, por si só, é um grande risco que pode levar as empresas a incorrerem em quebras e prejuízos, há um risco ainda maior que não está no radar dos empresários: internamente, pode haver uma crise obscura em suas organizações causada pela negligência, falta de caráter ou incompetência.

E, no quadro atual, fazer vista grossa para esses tipos de erros é um passo para o fim da organização.

(*) – É consultor de empresas, advogado, mestre em finanças e atua há mais de 20 anos como gestor comercial em multinacionais.

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