Trabalho e renda em um mundo muito além da pandemia

Josilmar Cordenonssi Cia (*)

Os que não podem trabalhar e que tem carteira assinada, sentem que seu emprego está em risco.

Poucas coisas causam mais angústias a uma pessoa do que reportagens dizendo que a sua profissão pode desaparecer dentro de poucos anos por conta da inteligência artificial ou automação. E é preciso que você se reinvente. Para os jovens prestes a decidirem qual curso superior é o melhor para eles, é dito que a profissão que vão exercer no futuro possivelmente ainda não foi inventada.

A esse pano de fundo, acrescente uma pandemia que força milhões de pessoas a ficarem em casa. Alguns poucos conseguem trabalhar de casa (home office), outros precisam continuar trabalhando (setores essenciais) e a grande maioria não tem como trabalhar. Os que não podem trabalhar e que tem carteira assinada, sentem que seu emprego está em risco. Os desempregados não conseguem obter emprego nesse momento e muitas vezes não podem ficar em isolamento, pois precisam trabalhar para trazer comida para dentro de casa.

Essa pandemia pode nos dar pistas sobre o rumo que o mercado de trabalho deve tomar. De uma maneira geral, aqueles que estão trabalhando de casa, estão em profissões que são ligadas ao futuro e aquelas que foram dispensadas do trabalho (empregadas ou não) correm um risco maior, não necessariamente de desaparecer, mas de ter uma perda relativa de importância e de renda.

Em economia, o salário é uma função da produção marginal do trabalho, ou seja, se a produtividade do trabalhador aumentar o seu salário tende a aumentar. Para as profissões que fazem uso intensivo de novas tecnologias, a produtividade tende a ser alta e os salários também. Diz-se que essas profissões são as que demandam “mão de obra qualificada” e as profissões que usam tecnologias tradicionais, isto é, tecnologias que não exigem estudos são chamadas de “mão-de-obra sem qualificação”.

Para o país crescer com qualidade de modo sustentável, tenho que repetir um velho bordão: é necessário investir na educação. Hoje, já há muitas vagas de trabalho que não são preenchidas por conta da falta de mão de obra qualificada. No futuro essa demanda será maior e o nosso sistema de educação terá que suprir, caso contrário, as empresas buscarão esses profissionais no exterior e os brasileiros ficarão com empregos de baixa qualificação, subempregos no mercado informal.

Também o custo da educação tem que diminuir. O exemplo do mercado de profissionais de informática pode ser um exemplo de como todo o sistema de educação pode ser orientado a partir do ensino médio. As empresas exigem certificados profissionais dos candidatos, atestando se ele domina alguma linguagem de programação ou ferramenta computacional. Ou o candidato tem que cumprir uma determinada tarefa/projeto. A formação formal não é o mais importante. Dessa forma, as pessoas podem orientar a sua formação naquilo em que ela se sinta apta a exercer e que ela seja atraída e estimulada.

O mercado de trabalho tende a sofrer a turbulência natural das inovações tecnológicas. E isso é desejável. Em uma economia pujante é importante que os profissionais sejam estimulados a assumir riscos até para virarem empresários. O Brasil (ainda) não oferece um ambiente de negócios em que empreendedores se sintam atraídos a investir em atividade produtiva. Para inovar, os erros e falhas são inevitáveis.

Para termos empresas inovadoras, temos que criar um ambiente em que empresas que falhem não sejam (excessivamente) penalizadas. Assim como um investidor de venture capital que aposta em 10 start-ups, sabe que poucas conseguirão sobreviver e talvez uma irá dar lucro, mas esse lucro compensará o dinheiro investido nas outras nove. E os profissionais das empresas que falharam, aprenderão muito com o processo e terão mais chances vencer no futuro.

As empresas também têm que aprender a incentivar a criatividade e a inovação entre seus profissionais, criando projetos, que podem ser transformados em empresas independentes (spin-off). Esse pode ser um modelo para atrair e reter talentos em um mundo onde o recurso mais escasso não é o capital, mas sim ideias.

Nenhuma tecnologia como a Inteligência Artificial conseguiu ter ideias, e não há expectativa que isso se concretize. Somente humanos podem ter ideias. Por isso temos que investir e valorizar nossa gente, os recursos humanos, recursos criativos, geradores de riquezas.

(*) – Graduado em Economia, mestre e doutor em Administração de Empresas, é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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