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Startups brasileiras: o ecossistema é o Santo Graal do setor?

em Artigos
sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Carlos Akira Sato (*)

O Brasil deixou de ser apenas um grande consumidor de tecnologia para se tornar um laboratório de inovação capaz de produzir empreendedores resilientes e soluções escaláveis em um ambiente altamente adverso. Essa percepção ganhou força após executivos de grandes empresas globais definirem as startups brasileiras como uma espécie de Santo Graal do setor, ou a “galinha dos ovos de ouro”, definição essa feita brilhantemente por Henry Couto, à frente do Google for Startups Accelerator. O insight traz o diálogo por conta da capacidade do ecossistema local em desenvolver soluções competitivas mesmo com acesso restrito a capital. Contudo, essa metáfora positiva carrega uma provocação: se o ecossistema é tão promissor, quem realmente ficará com o valor gerado? Historicamente, financiou-se a expansão acelerada sem rentabilidade imediata, mas o empreendedor nacional convive com juros elevados, insegurança jurídica, complexidade tributária e custos regulatórios precoces que exigem eficiência operacional desde o primeiro dia.

Desafios de capital e a realidade do empreendedorismo local
A resiliência obriga as empresas emergentes a validarem produtos e controlarem despesas mais cedo, aprendendo na prática a fazer mais com menos. Embora os aportes em capital de risco tenham mostrado recuperação no país, o volume ainda é modesto diante do tamanho da economia nacional e do potencial inovador. Parcela expressiva do valor tecnológico surge antes mesmo de a empresa ter faturamento, quando profissionais identificam ineficiências em setores como finanças, agronegócio, saúde e logística.

O vazio entre a ideia e a empresa investível
• Falta de tração inicial:Muitos projetos promissores morrem antes de chegar ao mercado por falta de capital semente.
• Barreiras de crédito tradicional:Bancos exigem garantias e histórico financeiro que negócios em estágio inicial não possuem.
• Burocracia em incentivos públicos:Processos lentos afastam fundadores que precisam de agilidade tecnológica.
• Custos regulatórios precoces:Exigências de conformidade muitas vezes superam a capacidade financeira da estrutura inicial.

Para superar esse abismo e transformar projetos conceituais em estruturas atrativas para investidores, muitos empreendedores buscam suporte na assessoria jurídica para startups e empresas de tecnologia, garantindo segurança societária e regulatória desde os primeiros passos.

Dos unicórnios ao desafio da permanência do valor gerado
O país já provou sua capacidade de criar empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, especialmente em setores de forte apelo regulatório, como serviços financeiros e pagamentos. Contudo, o grande desafio não é apenas celebrar os unicórnios consolidados, mas impedir que o sucesso de poucas dezenas esconda a dificuldade enfrentada por milhares de projetos que continuam sem acesso a recursos operacionais. A presença de fundos e multinacionais internacionais deve ser celebrada por trazer infraestrutura e escala global, mas o país precisa construir mecanismos para reter uma parcela relevante da riqueza gerada. Quando a propriedade intelectual ou a sede de um negócio são transferidas para o exterior por falta de alternativas locais, o valor futuro deixa de circular na economia nacional.

Governança proporcional e o futuro da inovação nacional
A discussão central deve migrar do número de unicórnios existentes para a quantidade de boas ideias transformadas em empresas sustentáveis. Isso exige ambientes seguros de experimentação, universidades conectadas ao setor produtivo, fundos corporativos ativos e regulação proporcional baseada em risco. A governança não pode ser postergada para depois do crescimento, mas tampouco pode inviabilizar o negócio pré-operacional com exigências desproporcionais ao seu estágio de maturidade. Cada grande problema estrutural do país representa uma oportunidade de inovação; contudo, a resiliência não deve ser confundida com política de desenvolvimento. Precisamos de um ambiente onde o empreendedorismo cresça por causa das condições oferecidas pelo país, garantindo segurança jurídica e capital estratégico para participar integralmente dos frutos dessa produção.

(*) Co-Founder da Syscapital, Conselheiro da Zuvia Digital Assets e especialista em Startups, Mercados Regulados, Governança e Inovação. Vice-Presidente de Relações Institucionais da PAGOS (Associação de Gestão de Meios de Pagamentos Eletrônicos).