Carlos Brito (*)
O Rio de Janeiro vive há décadas uma guerra contra a violência. Mudam os governos e as estratégias policiais, mas a sensação de insegurança continua fazendo parte da rotina dos cariocas. O combate ao crime organizado exige inteligência e atuação firme das forças de segurança, mas é preciso reconhecer uma realidade muitas vezes ignorada: não existe segurança pública duradoura sem política urbana.
A violência prospera onde faltam oportunidades, infraestrutura e investimentos privados, o que procurei enfrentar no projeto habitacional que desenvolvi para a Zona Oeste. Investir em habitação popular também é investir em segurança pública. Segundo o IBGE, o Rio possui mais de 1.300 favelas, onde vivem cerca de 1,4 milhão de pessoas, muitas sem saneamento, mobilidade e serviços públicos de qualidade.
Ao mesmo tempo, a Fundação João Pinheiro estima que o Brasil possui um déficit habitacional superior a 6 milhões de moradias. Grande parte desse número está concentrado entre as famílias de menor renda, que acabam recorrendo à ocupação irregular, ao aluguel precário ou à autoconstrução sem planejamento. Quando bairros crescem sem infraestrutura, sem planejamento urbano e sem presença permanente do poder público, cria-se um ambiente onde organizações criminosas encontram espaço para exercer controle territorial, substituir o Estado e recrutar jovens que não enxergam perspectivas de futuro.
Depois de mais de cinco décadas atuando na construção civil na Zona Oeste, acompanhei essa realidade de perto. A região reúne quase metade da população da cidade e possui enorme potencial de expansão, mas ainda enfrenta desigualdades, crescimento desordenado e carência de infraestrutura. Não basta construir casas. É preciso construir bairros. No livro “O empresário construtor e o João de Barro”, apresento uma proposta para implantar, ao longo de 20 anos, um polo habitacional com 200 mil moradias populares distribuídas em 22 bairros da Zona Oeste, priorizando regiões como Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Realengo. O projeto prevê saneamento, escolas, unidades de saúde, áreas de lazer, comércio, mobilidade e geração de empregos, promovendo um crescimento urbano planejado e reduzindo desigualdades.
Moradia digna representa muito mais do que um teto. Significa ruas iluminadas, transporte, serviços públicos, estabilidade, patrimônio e pertencimento. Diversos estudos mostram que a urbanização planejada reduz fatores associados à violência. É necessário ocupar o território por meio de infraestrutura e serviços, diminui o espaço para a atuação do crime organizado e melhora a qualidade de vida.
Defendo ainda que essa iniciativa seja acompanhada por programas de regularização fundiária e autoconstrução assistida, permitindo que milhares de famílias construam suas casas com apoio técnico, reduzindo custos, gerando qualificação profissional e movimentando a economia local.
A construção civil é uma poderosa ferramenta de transformação social. Além de reduzir o déficit habitacional, gera empregos, fortalece a economia e amplia as oportunidades para jovens que hoje vivem em áreas marcadas pela falta de perspectivas. A segurança pública não pode ser tratada apenas como política de repressão ao crime. Também precisa ser uma política de desenvolvimento urbano.
Quando uma família conquista uma moradia digna, ganha estabilidade. Quando um bairro recebe infraestrutura, ganha cidadania. E quando uma cidade reduz suas desigualdades, reduz também o espaço onde prosperam a violência e o crime organizado. O Rio de Janeiro precisa continuar investindo em policiamento. Mas, para alcançar resultados duradouros, também precisa investir em cidades mais planejadas, inclusivas e humanas. Porque a paz também se constrói tijolo por tijolo.
(*) Carlos Brito é empresário da construção civil, escritor, jornalista e diretor presidente da Associação Empresarial e Comunitária de Campo Grande e adjacências.
