Pandemia e Educação

Rodrigo Augusto Prando (*)

A pandemia que ora nos coloca em isolamento social trouxe impactos consideráveis em nossas vidas.

A educação é uma dessas áreas que merece atenção de toda a sociedade. Provavelmente, o leitor já recebeu no celular áudios e frases de pais e mães desesperados querendo devolver seus filhos à escola, suplicando pelos professores e, até, propondo aumentos robustos de salários. O humor, aqui, tem sua serventia à reflexão sociológica. Como se costuma dizer: só valorizamos algo quando perdemos, ainda que temporariamente.

Em casa, somos (minha esposa e eu) dois professores, ambos, contudo, lecionamos em universidades. A formação pedagógica, no meu caso, direciona-se ao ensino de Ciência Sociais para jovens e adultos. O processo de ensino e aprendizagem com crianças não é o mesmo com adolescentes ou universitários. Sistematicamente, ao realizar as tarefas com meu filho tenho perdido a paciência e, depois, sinto-me culpado, já que sou um professor.

Meu filho, nada inocente, há tempos sabe como me tirar do sério e, nisso, já tem pós-doutorado. Sei que a situação não é exclusividade aqui em casa. O envolvimento emocional, às vezes, acaba por soterrar todo o planejamento oriundo da racionalidade pedagógica. Um aspecto que chama a atenção é que no ranking da Varkey Foundation, de 2018, acerca do status do professor, o Brasil é o país que ocupa a última colocação, entre todos os pesquisados, em valorização dos professores.

A sociedade brasileira, como um todo, desvaloriza o trabalho realizado nas escolas por professores, coordenação pedagógica, diretoria e os funcionários. Os que podem, no momento, trabalhar em home office têm tido a experiência de conjugar trabalho, aulas e lições de filhos e afazeres domésticos. Felizmente, no campo educacional podemos usar os recursos disponíveis na internet e em plataformas de ensino online.

Contudo, não nos esqueçamos: são ferramentas e quem as opera, depois de muito planejamento, são os professores. A educação efetiva traz à tona a importância não apenas da transmissão de conteúdo, mas da função socializadora da escola. O ensino não se esgota nas quatro horas, em média, passadas numa sala de aula. A aula depende de planejamento dos objetivos a serem atingidos, os meios necessários para melhor explicar conceitos abstratos em exemplos concretos e conseguir o envolvimento dos alunos nessa jornada.

O trabalho do professor não se limita à dimensão quantitativa: horas-aula, número de alunos e de provas para corrigir. A educação tem uma especial dimensão qualitativa, que abarca o universo individual, emocional, social, cultural e ritmos distintos de aprendizado de cada um. Professores estudaram – e muito – para preparar boas aulas e nunca deixam de estudar, pois manter-se atualizado é primordial numa profissão que nós vamos envelhecendo e nosso “público” sempre terá a mesma idade.

Muitos de nós, professores, somos formados num mundo analógico e lidamos com crianças e jovens numa cultura digital, cujo tempo presente e a ansiedade por fazer muitas coisas ao mesmo tempo sem a devida atenção e concentração nos desafia diariamente. Manter uma turma atenta na universidade com jovens na posse de seus celulares é uma verdadeira epopeia pedagógica. Só quem lá está, sabe. Nos primeiros anos da escola não deve ser diferente, ainda que sem o celular.

Que possamos, em breve, retomar nossas vidas normalmente. E que a educação, a escola e os professores recebam a atenção que merecem. Que o professor tenha o respeito que lhe é devido, um salário que lhe seja digno da responsabilidade de seu ofício. Tomara.

(*) – Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp, é professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas.

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