Márcio Grazino (*)
A economia brasileira costuma ser medida por índices complexos e planilhas extensas, mas quem atua no setor de embalagens sabe que a realidade se revela na variação dos pedidos e no volume dos estoques. Nosso segmento é, por natureza, um indicador antecipado do consumo, afinal, antes que um produto final chegue às lojas, ele precisa ser embalado e transportado.
Dessa perspectiva, é possível observar de forma mais prática a recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que reduziu a taxa Selic de 14,50% para 14,25% ao ano e gerou um impacto imediato na percepção do mercado. O movimento sinaliza que o Banco Central reconhece a necessidade de flexibilização, mas, no dia a dia da indústria do Grande ABC, o que se sente é um alívio ainda pequeno diante do cenário que enfrentamos.
O corte de 0,25 ponto percentual — o terceiro seguido — é um aceno positivo, mas não altera a realidade financeira das empresas, ou seja, juros na casa dos dois dígitos continuam exercendo uma pressão severa sobre qualquer planejamento. No universo industrial, os investimentos exigem previsibilidade e taxas viáveis. Quando o custo do crédito corporativo permanece elevado, o empresário é obrigado a adiar a modernização de maquinários, a expansão de linhas produtivas ou a adoção de novas tecnologias.
O problema atual não é a falta de interesse em crescer, mas sim o fato de que o retorno de projetos de longo prazo acaba sendo neutralizado pelo custo do financiamento. É uma dinâmica que desestimula o investimento produtivo em favor de posições financeiras mais conservadoras.
Essa leitura técnica da realidade é compartilhada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A trajetória de queda é importante, mas ainda funciona como um ajuste inicial que não reverte o impacto acumulado por um período prolongado de juros restritivos.
Não se trata de um posicionamento de oposição à condução da política monetária, mas de uma constatação prática sobre o ritmo da recuperação econômica. Enquanto as decisões macroeconômicas avançam de forma gradual, as necessidades das empresas em relação à manutenção de empregos e ganho de competitividade exigem respostas mais rápidas. O crédito caro limita a capacidade de reação do setor, focando os esforços na gestão de curto prazo.
Para o segundo semestre de 2026, a indústria deve manter uma postura de rigorosa eficiência interna. Seguiremos otimizando processos, controlando desperdícios e buscando produtividade dentro de nossas operações. No entanto, o verdadeiro salto de crescimento do parque fabril nacional depende da continuidade e do aprofundamento dessa agenda de redução de juros.
O setor produtivo brasileiro tem capacidade de resposta rápida, mas precisa de um ambiente de negócios onde o custo do capital seja condizente com a necessidade de expansão da economia real. Afinal, o desenvolvimento sustentável de um país depende diretamente da capacidade de sua indústria produzir, circular e gerar valor.
(*) Márcio Grazino é diretor da Maximu’s Embalagens Especiais.
