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Os desafios do crescimento

em Artigos
segunda-feira, 02 de março de 2026

Preservar o legado da família, inovar, investir em tecnologia e ajustar-se às novas demandas – são muitas as agendas das empresas hoje em dia

João Roberto Benites (*)

As empresas familiares estão com dificuldades de alcançar um crescimento mais expressivo, em consequência da priorização da estabilidade diante das incertezas macroeconômicas. É o que a pesquisa PwC 2025 Global Family Business Survey apurou no final do ano passado. Menos empresas familiares estão crescendo a dois dígitos. Apenas uma em cada quatro (25%) alcançou crescimento de vendas de dois dígitos no último ano, ante 43% de dois anos atrás, o que marca um retorno aos níveis da pandemia.

Fruto do esforço de um visionário, a empresa familiar costuma nascer da convergência entre sonho e necessidade, quando alguém decide arriscar e transformar uma ideia em negócio. Ao longo do tempo, o empreendimento cresce, incorpora novos membros da família e profissionais externos e, inevitavelmente, chega ao momento em que ajustes estruturais se tornam indispensáveis para manter a competitividade e avançar a um novo patamar.

Empresas familiares prosperam quando conseguem combinar valores dos fundadores com agilidade na tomada de decisão e elevado comprometimento com o crescimento sustentável. No entanto, esse equilíbrio não se sustenta de forma espontânea. A profissionalização da gestão, a clareza nos papéis e responsabilidades e a separação entre relações pessoais e decisões empresariais são fatores decisivos para a longevidade do negócio.

A adoção de práticas de governança corporativa aparece como um dos principais diferenciais. Conselhos de Administração e Conselhos de Família contribuem para decisões mais técnicas, reduzem conflitos e ajudam a alinhar interesses da família com os objetivos da empresa. Outro eixo central é o planejamento sucessório, que precisa ser estruturado com antecedência para garantir continuidade, minimizar rupturas e preservar o legado construído.

A diversificação e a inovação também ganham protagonismo e fazem muita diferença na trajetória de um negócio. Empresas familiares que buscam crescimento saudável tendem a adotar estratégias de alocação de capital mais ágeis, incluindo fusões e aquisições, como forma de ampliar mercados, diluir riscos e acelerar a transformação digital. Esse movimento exige visão estratégica e disposição para aprender, sem perder de vista os valores que sustentam a identidade do negócio.

Superando o conflito de gerações
O engajamento multigeracional é outro ponto sensível. Envolver diferentes gerações na liderança e na formulação da estratégia fortalece a continuidade dos valores fundadores e, ao mesmo tempo, estimula a inovação e a adoção de práticas ambientais, sociais e de governança. O sucesso, nesse contexto, vai além do resultado financeiro e se relaciona diretamente com a capacidade de inovar sem romper com o legado familiar.

Em um ambiente de mudanças rápidas e desafios crescentes, a informação qualificada torna-se um ativo estratégico. A chamada solidão do poder pode limitar a circulação de ideias e comprometer decisões relevantes. Conselhos consultivos, com estruturas adaptáveis ao porte do negócio, funcionam como espaços de provocação e reflexão, trazendo visões externas fundamentais para quem está imerso na rotina operacional.

Mesmo empresas de médio porte, em fase inicial de expansão, precisam investir em tecnologia, inovação e boas práticas de governança. Mapear oportunidades de crescimento e avaliar riscos de forma estruturada deixou de ser diferencial para se tornar requisito básico de competitividade.

No Brasil, a relevância das empresas familiares é expressiva. Elas representam cerca de 90 por cento dos negócios e respondem por aproximadamente 65 por cento do Produto Interno Bruto nacional, segundo dados do Sebrae de 2024. Apesar disso, os desafios de continuidade são significativos. Apenas 30 por cento dessas empresas chegam à terceira geração, e somente 15 por cento conseguem ultrapassar esse marco (Banco Mundial/Sebrae).

Já o Global Family Business Report 2025, realizado pela KPMG, apontou que empresas familiares bem-sucedidas apostam na diversificação estruturada de capital, conhecimento e propósito. O relatório destaca que o crescimento precisa ser planejado com visão de longo prazo, respeitando o legado e fortalecendo os laços familiares. Segundo o estudo, 45% das empresas com legado bem estruturado relataram desempenho superior ao de seus concorrentes, e 53% apresentaram resultados elevados em sustentabilidade. O crescimento inorgânico também ganha espaço. Mais de 60% dos alvos recentes de fusões e aquisições são empresas familiares.

Empresas familiares de alto desempenho compartilham características claras, como governança sólida, cultura de inovação, abertura para diversificação de capital e orientação empreendedora transgeracional. Investir em sustentabilidade deixa de ser apenas uma resposta a pressões externas e passa a integrar a estratégia de negócios, reduzindo riscos, fortalecendo a reputação e atraindo talentos.

(*) Preside Conselhos de Administração de empresas familiares. Atua como Conselheiro Consultivo da Grant Thornton Brasil e do Hospital das Clínicas (SP). É conselheiro certificado pelo IBGC, especialista em expansão estratégica de empresas.