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O termômetro de uma economia fragilizada

em Artigos
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Márcio Aguilar (*)

A recente divulgação da Serasa Experian do crescimento de 15,5% na demanda das empresas por crédito não pode ser interpretada como sinal de expansão econômica no país. Esse dado reflete, na verdade, a necessidade de recursos para sustentar despesas de manutenção e estrutura operacional.

Em um cenário de crescimento econômico reduzido e com a indústria operando abaixo do esperado, o crédito demandado não está direcionado à ampliação de parques fabris ou à implantação de novas plantas industriais. Trata-se, essencialmente, de uma busca por recomposição de caixa e renegociação de despesas correntes, o que evidencia as dificuldades enfrentadas pela economia brasileira.

O setor de serviços, que já vinha sustentando parte da atividade econômica, ainda registrou impulso pontual em função das festas de fim de ano. Inclusive, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projeta um desempenho melhor do que em 2024 e o maior da última década. Contudo, passado esse período sazonal, há tendência de arrefecimento, enquanto a indústria segue afetada pela ausência de um plano consistente de expansão industrial.

A expectativa positiva recai, outra vez, sobre o desempenho do setor primário, com a projeção de uma nova safra recorde de grãos, capaz de movimentar a economia no primeiro trimestre. Ainda assim, 2026 se desenha como um ano desafiador, com um calendário marcado por muitos feriados, Carnaval antecipado e ambiente eleitoral.

Com os juros em patamares elevados, a necessidade de capital de giro passa a gerar mais endividamento do que soluções estruturais. Como consequência, consolida-se um nível recorde de dívidas, tanto de pessoas físicas quanto jurídicas, acompanhado por processos recorrentes de renegociação.

E esse cenário produz um efeito cascata: as empresas mantêm suas operações, honram salários e tributos, mas transferem a pressão financeira para os fornecedores, que passam a enfrentar longos prazos e renegociações com deságio.

O desafio de 2026, portanto, será significativo, com o fechamento das contas públicas e o debate eleitoral no centro das decisões econômicas. A definição ou a manutenção da política econômica vigente terá impacto direto sobre juros, spread bancário e acesso ao crédito, elementos decisivos para a sustentabilidade das empresas e da economia real. A ver como o país enfrentará esse cenário.

(*) – É Presidente do Sindicato das Sociedades de Fomento Comercial – Factoring do Rio Grande do Sul (Sinfac-RS).