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O Milagre Brasileiro, Versão BETa: Entre o Pix, a Bet e a Ilusão de Classe

em Artigos
quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Marcos Valle (*)

Eis que o Brasil realizou uma daquelas façanhas dignas de estudo em Oxford: conseguimos atingir o pleno emprego técnico, com o desemprego raspando os 6,4% e mais de 101 milhões de pessoas ocupadas, sem que isso se traduza em enriquecimento para a maioria, funcionando antes como um mecanismo de consolidação das elites econômicas. O PIB cresce a quase 3% ao ano, a inflação (IPCA) comportou-se dentro da meta do Banco Central, e a massa salarial real supera os R$ 310 bilhões mensais. No papel, um triunfo. Na vida real, um fascinante enigma sociológico.

Para entender a nova classe média brasileira, esqueça o saudoso sonho do carro zero na garagem ou da televisão de plasma financiada em vinte e quatro suaves parcelas. O novo padrão de vida não é sobre acúmulo patrimonial, mas sobre a manutenção do status das aparências. Vivemos a era do “trabalhador multitarefa”: o cidadão com carteira assinada recebendo os seus R$ 3.000 mensais que, ao soar do apito de sexta-feira, transforma-se em motorista de aplicativo para financiar o jantar via delivery e o plano de internet de alta velocidade. Trata-se do consumo de experiência financiado pelo arranjo da renda híbrida.

Mas o dinamismo dessa engenharia social contemporânea atende por outro nome: a democratização do infortúnio financeiro. Com 38,5% da população trabalhadora no setor informal e cerca de 77% das famílias da classe média com algum nível de endividamento, encontramos uma válvula de escape perfeita. O Banco Central nos informa, com a costumeira precisão cirúrgica, que os brasileiros transferem algo em torno de R$ 20 bilhões por mês via Pix para casas de apostas esportivas e cassinos virtuais. Algo como 1% do nosso PIB evaporando em algoritmos no formato de “renda extra” (dinheiro de jogo/aposta não é renda extra). De repente, a poupança tradicional parece um hábito terrivelmente ultrapassado.

Entramos na era em que a subsistência básica compete diretamente com a ilusão do ganho fácil. As variáveis do futuro, uma taxa de fecundidade que despencou para 1,55 filho por mulher, uma dívida pública orbitando os 78% do PIB e um crescimento econômico empurrado mais pelo volume de emprego do que por ganhos reais de produtividade, desenham um cenário fascinante. Estamos nos tornando um país envelhecido, hiperconectado, de renda moderada e com uma inabalável fé na sorte digital.

A questão central, portanto, deixa de ser puramente econômica e passa a ser sobre quem nos tornamos no processo. Diante de uma precarização maquiada de autonomia, de dívidas roladas no crédito rotativo e da promessa de prosperidade a um clique de distância, resta-nos a reflexão: até que ponto estamos dispostos a ceder às tentadoras (e fúteis) mudanças da conveniência moderna, e até onde teremos a firmeza de resistir, preservando nossos princípios, valores e a boa lucidez financeira?

(*) Marcos Valle é bacharel em economia, doutor em sociologia e docente da Escola de Negócios da Universidade Positivo (UP).