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O dilema do COPOM: inflação em alta e uma estratégia questionável

em Artigos
segunda-feira, 12 de maio de 2025

Paulo Bittencourt (*)

A recente ata do Comitê de Política Monetária (COPOM) revela um desconforto crescente com a inflação, que segue pressionando a economia e frustrando as expectativas de convergência para a meta de 3,0%. Não é a primeira vez que o Brasil enfrenta esse desafio – nos últimos anos, o país repetidamente falhou em trazer a inflação para os níveis desejados, e 2025 já caminha na mesma direção. O problema, segundo o próprio Comitê, está agora no setor de serviços, que se tornou o grande vilão da alta de preços.

Diante desse cenário preocupante, o COPOM decidiu elevar a taxa básica de juros em 1 ponto percentual, levando a Selic para 14,25%. O movimento reflete a tentativa de frear a economia e reduzir as pressões inflacionárias, algo já esperado pelo mercado. No entanto, um detalhe chamou a atenção: apesar do tom de alerta sobre o aumento de preços, o Comitê antecipou que a próxima alta dos juros, em maio, será de menor magnitude. E é aqui que começam as contradições.

Se a ata está repleta de justificativas sobre a necessidade de conter a pressão sobre os preços e reconhece que os indicadores continuam piorando, por que, então, reduzir o ritmo de aperto monetário? A inflação não mostra sinais de arrefecimento, o hiato do produto é mais positivo do que o esperado, o que tende a pressionar os preços, e a atividade econômica se mantém resiliente. Mesmo assim, o COPOM parece já ter decidido que não elevará a Selic além de 15%, confiando que a inflação se ajustará ao longo do tempo.

Essa postura sugere uma aposta arriscada. O histórico recente demonstra que apenas esperar pela acomodação dos preços não tem sido uma estratégia eficaz. Em 2024, o setor de alimentos foi o grande responsável pelo descontrole inflacionário. Agora, são os serviços que puxam os preços para cima, evidenciando que a inflação no Brasil não é apenas um problema pontual, mas uma questão estrutural.

Além disso, o Comitê menciona as defasagens do ciclo de aperto monetário, o que pode indicar uma crença de que os efeitos dos aumentos anteriores ainda não foram plenamente sentidos na economia. Contudo, confiar que o tempo resolverá o problema pode custar caro. A perda de credibilidade na condução da política monetária seria um risco adicional, elevando as expectativas inflacionárias e tornando ainda mais difícil trazer os preços para um nível aceitável.

A comunicação do COPOM, portanto, parece inconsistente. Se a inflação segue resistente e a economia aquecida, seria lógico manter uma postura mais firme no controle da Selic. O anúncio antecipado de uma desaceleração no ritmo de alta dos juros pode ser interpretado como um sinal de hesitação, o que tende a alimentar a incerteza no mercado e entre os agentes econômicos.

É evidente que há limites para até onde os juros podem subir sem comprometer o crescimento econômico. No entanto, se o combate à inflação é a prioridade, o Banco Central precisa demonstrar um compromisso mais claro e coerente com esse objetivo. Caso contrário, o risco é continuar enxugando gelo: elevando os juros sem conseguir domar a inflação, enquanto os agentes econômicos perdem a confiança na capacidade do COPOM de conduzir o cenário com firmeza.

O Brasil já enfrentou ciclos inflacionários desafiadores no passado e sabe que reverter essa tendência exige medidas assertivas. Reduzir o ritmo da alta da Selic sem que haja sinais concretos de desaceleração da inflação pode ser um erro de cálculo que cobrará seu preço nos próximos meses. Se o objetivo é garantir a estabilidade econômica, a mensagem precisa ser clara e a estratégia, consistente.

(*) Especialista no mercado de capitais e estrategista-chefe da MZM Wealth.